DEPOIS

Publicado: março 4, 2021 em Literatura e Outras Artes, Poesia

DEPOIS

Marcos Torres

Não sei que dia é hoje.

Tanto faz. Um dia é sempre depois do outro.

Devo dizer.

Vamos fazer uma viagem.

Conosco, levaremos uma mochila velha.

Dentro: um pacote de bolacha Maria, e um cantil.

Há sempre alguém com fome e sede no meio do caminho.

No caminho, levaremos sorrisos, abraços, um ombro amigo,

lenços para enxugar lágrimas de pais, filhos, irmãs e mães que choram. 

Também levaremos um livro para ler e emprestar,

uma gaita para tocar nos dias frios,

uma poesia para acalentar os corações aflitos,

um apito para pedir socorro,

um medidor de pressão,

um estetoscópio,

pedaços de gaze e esparadrapos,

a situação pode exigir.

Ao longo do caminho iremos precisar cicatrizar e curar algumas feridas.

Por muito tempo, ficamos sem voz.

Nossos braços, cansados.

Os olhos, fatigados.

Lá fora, o tempo está opaco.

O céu, escuro.

As ruas, congestionadas.

Já não sabemos mais identificar os dias e as noites?

É tão bonito ver as praças arborizadas

e o parque onde brincam as crianças, rindo, correndo, pulando.

Licença, pois vamos precisar atravessar esse túnel,

e seguir, com essas cicatrizes no peito, rosto e corpo,

em busca de um outro mundo,

mesmo com essas pedras no meio do caminho,

carrascos e sanguinários canibais,

abutres que vivem nas sombras,   

em meio a tantas injustiças, indiferença e nenhuma indignação.

Seguiremos, mesmo sem sabermos o que vamos encontrar, depois.

Vamos meus irmãos e irmãs, com nosso corpo-cidade, corpo-ação,

corpo-movimento, corpo-político.

O tempo da apatia, passividade e imobilidade, acabou.

A hora é agora, avante, não há mais tempo.

Se temos ‘um defeito de cor’, viraremos um camaleão,

e lavaremos conosco a cor do vermelho-sangue de nossa indignação.

Chegou a hora dos levantes e revoltas, vamos salvar ‘os condenados da terra’, com ‘a enxada e a lança’, ‘a manilha e o libambo,’ porque ‘o sol é para todos’; marchemos, em meio a ‘um rio chamado atlântico’ em direção ao ‘atlântico negro’, porque muitos fingem não saber ‘a origem dos outros’.

Estávamos com a sensação de prisioneiros ilhados, enjaulados,

mas não importa, pois sabemos ‘por que o passarinho canta na gaiola’.   

Já não há mais tempo nem mais nada a fim de deixarmos para depois.

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