Prosa

O andarilho

PRÓLOGO

Thoth avisa que essa narrativa pode ter algumas falhas; pode, inclusive, vacilar ou ter alguns percalços. Isso se deve ao fato de que a memória não consegue dar conta de narrar todos os eventos decorridos numa sequência cronológica, pois há momentos em que a memória não está disponível para relatar os eventos e por vezes não consegue rememorar; nem sempre pode ser acessada a todo instante. Espero que não estejam querendo uma história emocionante ou engraçada, pois talvez isso não vá acontecer. Vou escrever coisas que julgo desnecessárias para os padrões atuais. Não vivo dentro de certo molde. Mas não estou preocupado com os padrões atuais, pois me causam certo enjoo. Não tenho registro definido. “O homem” de que sempre falo dentro do registro do texto tem o tom assexuado, para algumas reflexões que se seguem igualmente como o andarilho.
Este verbo não é vendido como um analgésico nas prateleiras das drogarias e nem mesmo um pedaço de escrita distribuída a varejo nas bancas de jornais.
A realidade da vida é uma metáfora. O poeta é uma verdade fingida. Mas essa verdade é tão real quanto você e eu. Escrevo coisas que dão certa nostalgia, como um engodo que dói no estômago ou deixa um mau cheiro como excrementos deixados por animais no pasto. Às vezes tenho vontade de vomitar diante de certas etiquetas. Têm cheiro de esgoto. Não escrevo por dinheiro. Já tenho o bastante para comer um pedaço de pão e tomar um sorvete de coco nos dias quente de verão, ou inverno. Nunca tenho certeza. Sou apenas um catador de feijão.
Este livro é determinado por um olhar maleável diante de certa fixidez. O que escrevo pode me fazer ganhar alguns trocados. Quando eu perder a inocência, talvez um dia escreva um livro mais interessante, engraçado ou mesmo utilitário e que, quem sabe, vire um Best-seller, fico rico e vou gozar os louros da fortuna numa ilha virgem além do Atlântico. Mas não sou muito bom em fazer barganha. Sou dissimulado. A minha verdade mais profunda pode ser a sua mentira mais insignificante. Aconselho a não ir buscar a veracidade dos fatos, pois suas chances serão quase zero. Os eventos aqui descritos são levados pelo vento. E, talvez tenha que viajar por muitos quilômetros, ou, até mesmo dar a volta ao mundo em busca do nada, de uma anacronia que não tem tamanho nem explicação. Os acontecimentos aqui relatados não são estáticos. Assim como as tempestades de granizo. São apenas algumas impressões temporárias. Nenhum lugar nem ninguém são mais como antes e a tonalidade das coisas já não é mais a mesma, tomou uma coloração austera.
Este projeto é uma grande metáfora em detrimento de um mundo e uma verdade demasiadamente esvaídos como um grão de açúcar.
A história conta a vida de um homem vagando pelo mundo vendo o desenrolar dos acontecimentos, que prefere ser um desertado a viver como um vegetal em estado lastimável. Ele vai vendo a vida se esvaindo a conta-gotas; o corpo parece um fardo e cada passo parece uma eternidade. Parece um rio brotando de uma pedra bruta; a força dos extremos no meio do nada. Parece um definhamento a conta-gotas. Escrevo coisas que julgo desnecessárias para os padrões modernos que vivem mergulhados num mar de ilusões e aparências.
Talvez navegue por outros mares se a maré aqui não estiver para peixe. Posso cortar o Atlântico, atravessar o Índico e seguir em direção ao Pacífico, ou, quem sabe, ir até os mares entre as montanhas geladas do Polo Norte. Não tenho direção definida. Posso ser um barco à deriva. Não uso bússola.
Assim como saborear um pedaço de bolo com geléia de amora sem precisar necessariamente comer todo o resto, não pretenda decifrar todo o livro. Isso seria uma tremenda insensatez. Mesmo porque um bolo às vezes sai solado ou ruim apesar de todos os ingredientes colocados conforme a receita. Talvez encontre algum pedaço de escrita que queira algum diálogo que pode ser tecido por toda uma vida. Mas isso não é tão seguro. Então não queira provar de tudo como peixe faminto que morde qualquer isca sempre no mesmo anzol. Gostaria de que você me lesse numa outra clave, pois do contrário estaremos perdendo demasiado tempo dialogando numa folha de papel.
Portanto, não perca tempo fazendo coisas sem sentido. Mas caso tenha coragem para a empreitada, você pode contar uma nova história que também pode ser levada pelo vento. Mas não pretenda contar o preto no branco como contaram do abismo e do buraco negro que tinha depois do Atlântico. Uma furada! A minha verdade pode ser tão profunda quanto a sua mentira pode ser tão insignificante. Com sua história talvez fique rico, rica ou caia no esquecimento. Mas cuidado com o “Admirável mundo novo”, ele pode soar como uma grande ironia, pois mostra os avanços preconizados pelos sistemas tecnológicos e a medicina: A informação na velocidade do vento e a medicina no moderno sistema de reprodução em laboratórios, In vitro; enquanto isso os homens se debatem aqui e agora, sem sequer terem um momento de ócio para furtar ao prazer. Não fiquem aflitos. Nem todos têm os mesmos gostos. Alguns vivem comendo hambúrguer e batata frita num fast food americano e outros comem um bife de caçarola feito na casa de vovó num lugar não muito distante. A gente nunca sabe onde tudo vai parar. O mundo é perverso e a explicação está situada num emaranhado de confluências que não têm explicação.
Este livro assim como a vida, é uma grande metáfora. É como numa loteria: é arriscar com alguns trocados e vê o que acontece. Não dá para saciar a sede de todos. Então. Boa sorte!

Thoth é um daqueles “homens” tentando enxergar, na escassez da penumbra além do horizonte, um certo ponto de vista.

PREFÁCIO

Mauro Porru

Nada é seguro na existência do andarilho Thoth Fênix. Sob o peso de um nome que implica no divino e na ressurreição, esse homem de quase quarenta anos, de provável origem egípcia, repentinamente, decide abandonar o mundo do trabalho e se desconectar da sociedade dos excessos, dos estímulos exacerbados, do tráfego, do barulho. Uma sociedade na qual as sensações e os fatos são devorados mais do que encontrados, as distâncias encurtadas e os tempos reduzidos, nos dando a ilusão de ter um maior acesso ao mundo, quando, na verdade, estamos perdendo o contato com ele. Diante disso tudo, Thoth Fênix torna-se um andarilho, empreendendo uma longa viagem, sem rumo definido, sem data para regressar. Ao invés de se deixar transtornar pelo frenesi da vida contemporânea, ele prefere se afastar dela, se dissociar do ritmo hiperacelerado da modernidade, procurando uma disposição reflexiva que lhe permita recuperar espaços e tempos menosprezados ou apreciar lugares paradisíacos, maravilhosos e espetaculares inexplorados. Através do seu olhar sensível que enxerga onde não se pode ver a olho nu, entramos em contacto, ao longo do texto, com os lugares visitados pelo andarilho: lugares pouco explorados, lugares onde todos gostariam de ir pelo menos uma vez na vida.
Como uma areia movediça, a narração procede de forma híbrida e fragmentária. Um pastiche intertextual que, se afastando de formas sistemáticas e harmônicas, assume a configuração de um collage, no qual se acumulam citações múltiplas trazidas de fontes diferentes. Uma maneira de narrar eclética que elimina as barreiras entre a escrita e outros saberes como História, geografia, arquitetura, botânica, biologia, antropologia, cinema e poesia.
Um movimento ondular rege o desenrolar-se da história contada em primeira pessoa por Thoth e em terceira pessoa pelo amigo Matheus Leão Adonias, seu interlocutor privilegiado e fiel depositário de suas memórias. O tempo da narração, pela própria estrutura da escrita, que assume entoações diarísticas, apesar de parecer seguro no início – São Caetano do Sul, São Paulo quinta-feira, sete de fevereiro de dois mil e oito. São onze horas e dez minutos-, ao longo do texto, torna-se incerto, intercalando-se ao tempo da história.
O grande ausente, no romance O andarilho, é Eros em sua acepção de impulso sexual. A própria voz autoral avisa que o texto tem o tom assexuado. Desse Thoth moribundo que muitas vezes passa despercebido, conheceremos apenas suas aspirações e suas fraquezas. Assistiremos à sua busca por um Sujeito atemporal e transcendental; um Ser que tateia no meio das trevas. O “fazer” desse andarilho, com todas suas implicações relativas ao relacionamento da vida com a sociedade, é substituído pelo “ser”, por meio de sua típica concentração de interesses pela interioridade, pelo Eu, pela sua consistência, essência e significação.
Thoth, em seu desejo extremo de liberdade, escolhe ser ‘ele próprio’, sem ceder à tentação de se adequar a papéis preestabelecidos pela sociedade e pela cultura em geral, manifestando, no final, uma aspiração à eternidade, querendo ser um íbis, aquele pássaro que morre e renasce das cinzas no dia seguinte num lugar desconhecido.

Já disponível em diversas livrarias e outros espaços de comunicações disponíveis.

“São três horas e vinte seis minutos da madrugada, estou com insônia; escrever sobre Thoth me consome os dias. O corpo já não obedece ao que as palavras procuram dizer. Às vezes elas aparecem e me acordam no meio da noite. Os olhos estão cansados e o corpo em estado lastimável. Preciso parar.” Em passagens como essa, o leitor do romance de Marcos Torres sente a gangorra narrativa da obra pender para um de seus lados e consegue recuperar o fôlego, para, logo em seguida, envolver-se novamente num movimento pendular. O pêndulo oscila entre a história de um andarilho, Thoth Fênix, narrada em primeira pessoa, e a mesma história, sutilmente transformada, narrada por seu amigo Matheus Leão Adonias, confidente de Thoth em suas passagens pelo Brasil e leitor privilegiado de cartas por ele enviadas de diversas partes do mundo.
Tecendo uma narrativa em paralaxe, Marcos Torres, pesquisador que se dedica aos estudos das vozes discursivas em biografias e autobiografias, mostra-se autor de fôlego num cenário contemporâneo em que poucos conseguem realmente dar voz a personagens, transformados em autores de suas próprias histórias.
Thoth não é objeto, é sujeito da história narrada por Matheus. Ambos, por sua vez, são sujeitos que dialogam com a voz autoral de O Andarilho. Assim, o leitor tem em mãos um objeto estético marcado pela polifonia tal qual postulava Bakhtin para as obras de Dostoiévski: uma pluralidade de vozes narrando e narrando-se, sem que nenhuma delas seja centralizadora ou se responsabilize por orquestrar as demais.

Orelha “O andarilho”.

Revisão e Orelha. Por Adriana Pucci
Lançamento e já disponível nas livrarias.

La historia cuenta la vida de un muchacho, Thoth Fênix, que ya está cerca de los cuarenta años de edad y, del día para la noche, toma una seria decisión: desconectarse por algunos momentos del mundo de los negocios, del trabajo, da las tareas profesionales e intelectuales; ausentarse del ruido de la gran ciudad. En esas sus andanzas se sumerge profundamente en un mundo de colores, texturas, aromas; un mundo salvaje, primitivo, fascinante, en lugares poco explorados, lugares a donde a todos les gustaría ir por lo menos una vez en la vida; otros lugares tal vez ni tanto y, otros incluso, donde tal vez, no se tiene muchas ganas de estar. Entonces, quería saber, también, como todavía viven las personas de vida simple, que viven en lugares primitivos, lugares salvajes, en medio de la selva, en la orilla de un río, en lugares prácticamente inhabitados o inhóspitos. Thoth parece uno de esos sujetos medio extraños. Parece medio árabe, medio asiático, medio africano, medio europeo, medio indio, medio negro, medio blanco, medio mestizo. Su origen parece no tener terreno. Un sujeto desgobernado viviendo en una tierra de nadie en un lugar sin dirección.

Trechos do livro “El Caminante”. Tradução Espanhola – de Pedro Julio Triana Fernández.

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