Arquivo de junho, 2013

SATÍRICON

Publicado: junho 29, 2013 em Conto

SATÍRICON

[…] Já que estamos aqui reunidos, não tanto para entregar-nos a discursos eruditos, mas para nos entreter com narrativas agradáveis, aproveitemos então, amigos a feliz ocasião que aqui nos juntou. Fabricius Vegento, como homem de espírito, acaba de vos entreter com os embustes sacerdotais. Ele vos pintou a maneira como os sacerdotes preparam, tranquilamente, seus furores proféticos, ou como comentam descaradamente os mistérios que nem sequer compreendem. Mas será menos divertida a mania dos oradores? Bradam: “Vejam essas feridas, eu as recebi defendendo a liberdade da pátria! Este olho, eu o perdi por vós! Dai-me um guia, levai-me a meus filhos, pois meus joelhos cicatrizados dobram-se sob o peso do corpo!” Mesmo essa ênfase, porém, seria suportável se os caminhos da eloquência fossem revelados aos alunos. Mas de que serve este estilo pomposo, esse jargão vazio? Os jovens, quando são iniciados no tribunal, julgam-se transportados para um novo mundo. O que fez de nossos pupilos mestres tão idiotas é que tudo quanto velem ou ouvem nas escolas não lhes oferece nenhuma imagem da sociedade. Em tais escolas, castigam incessantemente os tímpanos dos meninos com piratas em emboscadas no rio, preparando cadeias para seus prisioneiros; com tiranos cujos decretos bárbaros condenam os filhos a decapitar os próprios pais; com oráculos que, para salvar cidades devastadas pelas pestes, decretam a morte de três jovens virgens. É um verdadeiro dilúvio de frases melosas, agradavelmente dispostas – ações e discursos, tudo salpicado de sésamo e dormideira.

II

– Alimentados com tais tolices, como poderão esses jovens formar seu gosto? Um cozinheiro tem sempre os aromas da cozinha. Ó retóricos! Não vos ofendais, mas é de vós que vem a decadência da eloquência! Reduzindo o discurso a uma harmonia pueril, a um mero jogo vazio de palavras, vós o tornastes um corpo sem alma, um esqueleto somente. Quando Sófocles e Eurípedes criou uma nova linguagem comovente, a juventude não se exercitava os talentos nessas declamações. Pedantes cobertos pelo pó das salas de aulas ainda não esmagavam os talentos no berço quando a musa de Píndaro e de seus nove rivais ousou fazer ouvir canções dignas de Homero. E, mesmo sem citar os poetas, não creio que Platão e Demóstenes tenham se exercitado nesse gênero de composição. Como uma virgem prudente, a verdadeira eloquência não conhece o exagero. Simples e modesta, eleva-se com naturalidade, tornando-se bela graças somente aos seus próprios encantos. Não foi há muito que essa loquacidade bombástica passou da Ásia para Atenas. Como um astro maligno, sua influência mortífera reduziu durante a juventude os impulsos do gênio e, desde então calaram-se as fontes da verdadeira oratória.

[…]

Mais ou menos assim, falava eu certo dia. Foi quando Agamêmnon se aproximou de nós e, com ar de curiosidade, desejou saber quem era o orador que a massa escutava com tamanha atenção.

III

Impaciente por ouvir meu discurso ao longo de tanto tempo, sob o pórtico, quando há pouco, em sua aula, ele mesmo quase ficara rouco sem nenhum sucesso, Agamêmnon assim falou:
– Meu jovem, tuas expressões não refletem o gosto dominante. Tens bom senso, qualidade rara em tua idade. Quero revelar-te os segredos de minha arte. Não cabe aos professores a culpa pela ruindade de nossas lições. Diante de cabeças descerebradas, não se pode falar sensatamente. Como observou Cícero, se o ensino não for agradável, “o professor logo ficará sem ouvintes”. Igualmente, se o adulador parasita quer ser admitido à mesa do abastado, prepara previamente uma seleção de contos agradáveis para os convivas. Ele não atingiria o seu objetivo se não preparasse armadilhas para ouvidos de seu público. O professor de retórica, como um pescador, sabe muito bem que, se não colocar no anzol a isca preferida pelo peixe, ficará sentado eternamente no rochedo, sem esperança de fisgá-lo.

IV

– Assim, portanto, a culpa deve caber somente aos pais que negam a seus filhos uma educação severa e digna de um homem. Como tudo o mais, começam por sacrificar a esperança à ambição que eles possam ter. Em seguida, a fim de alcançar mais rapidamente o objetivo que almejam, lançam nos tribunais esses aprendizes de oradores. E a eloquência que a essa altura só o homem maduro pode atingir, segundo ele próprio o admite, eles a reduzem ao nível de um fedelho. Com mais paciência, os estudos seriam mais bem dispostos. Veríamos uma juventude estudiosa refinar imperceptivelmente seu gosto, meditando sobre livros, sujeitando sua alma pouco a pouco ao domínio da sabedoria, corrigindo penosamente seu estilo e ouvindo atentamente aos modelos que pretende tomar. Enfim, vê-la-íamos rejeitar sua admiração a tudo que normalmente seduz os infantes. Somente então a eloquência ressurgiria em toda a sua imponente majestade e nobreza. Contudo, esses mesmos homens que consideravam o estudo como uma brincadeira na infância, e que na adolescência foram motivo de anedotas nos tribunais, quando chegam à velhice, para o cúmulo do absurdo, não querem confessar os vícios de sua primeira educação. Não que eu reprove completamente a improvisação, da qual Lucílio é o pai – eu mesmo te darei uma amostra do meu estilo:

[…]

[Petrônio, Satíricon, (63 d. C.)]

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SALA DE VISITAS

Publicado: junho 29, 2013 em Poesia

SALA DE VISITAS

As imagens
são como dejetos jogados nas calçadas.

Linguagem, buraco negro,
a cena é tenebrosa,
como um abutre comendo carne
pisoteando a sala.

As crianças riem
da ingenuidade alheia;
você paralisado, inerte,
parece um desgraçado,
como uma macambira
numa terra gretada.

Na outra estação
um certo deus barganhando benevolência
por qualquer ninharia.
E eu aqui vertendo sangue,
borrando um papel sem dono.

M.T.

PREDADOR

Publicado: junho 29, 2013 em Poesia

PREDADOR

Lá vem
o algoz correndo atrás da presa,
lambendo o chão de tinta vermelha
com cheiro de carne fresca,
as unhas de dentre-de-sabre
ao encalce do homem da senzala.

O hálito soltando fogo,
como um dragão soprando fumaça
atrás da nuvem escura;
a boca bafora cicuta e cospe detritos
na têmpora do desgraçado.

O maldito chora escondido
em frente aos olhos da serpente,
atrás do cobertor de papelão,
e fica protegido por um artigo, parágrafo ou inciso 3,
no óbito de uma celulose,
quase apagado ou derramado como água salobra.

O predador fica à espreita
derramando saliva no canto da boca,
depois dorme numa cama macia
e espera o maldito sair do gueto para dar o bote.

M.T.

Poemas

Publicado: junho 29, 2013 em Poesia

CÉU CLARO

O cavalo da noite galopa nas luzes da rua
em todo canto o som triste
sento-me na esquina dos séculos
xícara de café: um estádio
um jogo de futebol
torcedores pulam como corvos

rumores de falhas
como o sol da manhã

senil em ascensão
elevo-me para outro andar
sábios tocam tambores nas nuvens
um barco remenda o mar
por favor enlace este momento no horizonte
deixe o milho e as estrelas se entrelaçarem

os desesperados braços de Deus
giram na face de um relógio

Bei Dao

SIM

Neste lugar, um sonho desabou.
E fiz florescer o meu pasto de iras
contra ninguém.

Neste lugar, meus dilemas
me abocanharam
e ouvi gargalhadas que eram punhais.

Neste lugar, me perdi.
E nada pedi a mim mesmo
para encontrar-me.

Deixei que as feras viessem
do meu avesso
e se perdessem de vista em minha carne

Roberval Pereyr

ASA DE CORVO

Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa própria casa…

Perseguido por todos os reveses,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irmãos siameses!

É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o pano preto
Que as famílias de luto martiriza…

É ainda com essa asa extraordinária
Que a morte – a costureira funerária –
Cose para o homem a última camisa!

Augusto dos Anjos

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Crônicas de Viagem – Pisando em Ouro

Ouro Preto – De 6 a 13 de junho de 2013

PISANDO EM OURO

Os apocalípticos dizem que o mundo está um verdadeiro caos e a sociedade está degenerada, enfim, que tudo está perdido dentro de um abismo sem tamanho ou explicação. É claro que isso é uma visão pretensiosa ou mesmo uma tentativa igualmente pretensiosa de unificar as opiniões e os gostos. Talvez essa visão e tentativa sejam reflexos num espelho.

Não. O mundo não é só desolação nem está um caos e tudo não parece estar perdido. Sim, há sempre um aroma a ser apreciado, um cheiro de neblina além das colinas perto do céu, passarinhos comendo no meio da relva, um gosto a ser sentido, há um sorriso doce e luminoso do outro lado da rua fazendo uma toalha de crochê com o corpo debruçado no parapeito de uma janela sem sentir o tempo passar como nos melhores dias. Escuto um silêncio tão profundo que dá para ouvir os ventos de outono vindo do leste.

Este é um lugar tão magnífico que a mais fértil imaginação do verbo deste pobre escriba não seria capaz de traduzir tamanha intensidade do Ouro que ali reluz. Este lugar desnudou os meus vícios e embalsamou todas as minhas misérias dentro de um sarcófago, para depois ser enterrado num buraco tão profundo quanto os deuses egípcios enterrados nas profundezas do Vale dos Reis, ficando lá para sempre. Este sonho e saudosismo me vencem e vêm para me libertar de todas as minhas misérias.

– Marcos, agora que estamos em alta estrada, você poderia me dizer o que achou da cidade que deixamos para trás há pouco instante?

– Hã. Ah, sim, claro, a cidade. A cidade que deixamos para trás há pouco tempo tem uma particularidade muito interessante, mas não vejo nada de muito diferente daquilo que se pode ver nas grandes capitais: cidade barulhenta, buzinas enfurecidas e um amontoado de gente se acotovelando e perambulando de um lado para o outro a todo instante; rostos enfadados; mendigos sangrando debaixo de marquises, em becos, ruas e avenidas, apilhados sobre as calçadas ou dormindo um sono injusto sob os viadutos; maltrapilhos vagando sem destino numa rua incerta como um deus esquálido, nada de novo neste céu nublado, sem explicações.

– Catedátrico, você me deixa em maus lençóis. Você poderia mudar de assunto?

– Sim, certamente.

As ladeiras daqui são íngremes…ufa!…As pernas doem muito… ufa!…As pedras são pontiagudas…ufa!…Talvez esse seja o preço para saborear outras paisagens…ufa!…parece que agora faltam poucos metros…ufa!…Até que enfim chegamos ao topo, pois já estava pensando em parar de falar e andar ao mesmo tempo, assim o desgaste é dobrado…ufa!…Chegamos!

– Veja isso, Catedrático. É uma imagem exuberante, não achas? Olha que coisa interessante e curiosa, Catedrático, como Ouro Preto parece com Ouro Preto!

– Mas, Marcos, aqui é Ouro Preto.

– Eu sei. Acha que eu tenho problemas mentais? Disse isso apenas para afirmar a singularidade deste lugar e ao mesmo tempo não deixar nenhuma brecha para suas divagações e seu excesso de comparações com outras coisas que têm do outro lado do Atlântico, e também sua mania de tudo colocar a ciência como ponto de explicação para os objetos. Este lugar pede uma contemplação mais amistosa, desnudada de outros conceitos mais polidos e sisudos. Digo isso porque, veja você, faça um teste, os especialistas elaboram milhares de páginas para falar deste lugar, vivem fazendo inúmeras comparações com outros lugares do outro lado do Atlântico (até os próprios guias e monitores repetem as mesmas coisas como papagaios), no entanto, faça uma pequena apreciação e diga: veja como é magnífica a construção daquela Torre, olhe a singularidade desta Escultura; pronto! Não conseguem sustentar dez minutos de conversa, já é o bastante para ver o tamanho do sofrimento e vai ver todo o aparato científico descer pelo ralo.

– Me diz uma coisa: Você é contra a ciência?

– Não. Pois desse modo estaria atirando no próprio pé, afinal, também somos cientistas, ou você esqueceu? Apenas proponho uma relação mais amistosa em certas ocasiões que pedem esta prosa. Em relação à ciência, vejo às vezes algo glamoroso recheado de certa veneração e submissão, como um cachorrinho balançando o rabo pedindo um osso. Acho que às vezes é preciso tirar a couraça e saborear outras paisagens. Ficam tão enfronhados neste ambiente que às vezes parece uma prisão e não conseguem ver as coisas num outro ângulo, às vezes falam certas coisas com uma profundidade tão grande que chegam a molhar os calcanhares das formigas.

– Agora que já estamos aqui no topo, Catedrático, vamos começar pela Praça Tiradentes, mas não esqueça que ainda temos muita coisa para ver ao longo desses quatro dias: além da Praça Tiradentes têm também o Museu da Inconfidência e ao lado a Igreja de N.S. das Mercês; do outro lado o Museu de Ciência; no meio desta ladeira a feira de Pedra-sabão e ao lado a Casa de Cultura; lá em cima naquela ladeira íngreme fica a Igreja de Santa Ifigênia e mais abaixo a Igreja do Padre Farias com um sino ao lado, que tocou algumas badaladas na morte de Tiradentes, também é o mesmo que foi levado para ser tocado na inauguração de Brasília; descendo a mesma ladeira fica a mina Chico Rei; atrás dessas casas fica a Casa dos Contos onde no subterrâneo fica uma senzala para relembrar os artefatos que promoviam as coisas mais escabrosas, e também um parque para mudar o tom da paisagem; por trás deste museu fica a Biblioteca Pública, e tem mais coisas entre essas ladeiras: Igreja de Jesus de Matozinhos, Igreja de São José, Igreja de N.S. do Carmo, Igreja N.S. da Conceição, Igreja N.S. do Pilar, Igreja N.S. do Rosário, Igreja São Francisco de Assis, Igreja Francisco de Paula, Capela N.S. das Dores, Capela de Nosso Senhor do Bonfim, Capela de São João Batista, Capela de São Sebastião, Capela Bom Jesus das Flores.

Ah! E o Museu do Aleijadinho!? Os Doze Profetas todos em Pedra-sabão e em tamanho natural que ficam em frente à Igreja de Bom Jesus de Matozinhos; e também a Santa Ceia e na sequência os Passos da Via-crúcis, tudo esculpido em madeira, jacarandá e pinho, 66 esculturas se é que esta memória não está me trapaceando. Esta apreciação ficará reservada para o final. E a assinatura do Aleijadinho, como saber? Um regime de autoria muito diferente deste que atualmente presenciamos, mas esta é uma prosa que ficará para mais adiante no desenrolar desses devaneios.

– Dizem também que a viagem de Maria-fumaça entre Ouro Preto e Mariana é uma beleza, assim como a visita à Mina da Passagem e a explicação do trabalho com a bateia em busca do ouro em pó, onde ao lado também ficam um museu e uma loja de pedras preciosas e outros objetos. É tanta coisa para ver que se tentarmos apreciar com demasiada vagarosidade demandaria outra vida. Isso sem contar todas as belezas naturais que podemos ver do alto das ladeiras, como estamos fazendo agora para nos libertar de todos os nossos vícios e misérias, ele disse.

– Marcos, eu sei que vamos conversar sobre este assunto mais adiante, mas é verdade que Aleijadinho é um gênio da escultura e que chegam a considerá-lo um deus em sua arte? Ele estudou em alguma escola de Belas Artes italiana ou francesa? Ele seria mesmo um deus? Digo isso porque muitos dos grandes pintores e escultores estudaram nestes locais.

– Certamente, muitos dos grandes pintores e escultores estudaram nestes locais. Estes são das categorias dos grãos de azeitonas. O Aleijadinho está muito além desta mera categoria, milhares de anos-luz, um homem raro de encontrar hoje em dia e quase não se ver por aí, é como encontrar uma agulha no palheiro, se é que você me entende. Grande parte do sujeito pós-moderno parece lenha verde: quanto mais o assopra ele só sai fumaça. Se ele é um deus? É bem provável que sim. Por quê? Ele não poderia ser? Só porque ele tem essa cara de esfomeado e de sarampo ressecado e é aleijado dos pés e das mãos?

– Mas o que dizem por aí é que deus tem um outro rosto.

– Sim, e daí? Você parece um papagaio.

– E daí é que ele não poderia ser deus, poderia?

– Dizem também que o homem é a imagem e semelhança de deus, então não importa se ele é um árabe endinheirado ou um farrapo humano ou um deus molambo, maltrapilho e esquálido.

– Sábias palavras! Você tem razão.

– Falando assim você parece um padre, entra num convento e ficar por lá até que a morte os separe?

– Não existe sapiência nenhuma nestas palavras e também não estou com razão alguma; nesta ocasião eu apenas repito como papagaio.

– Agora me diz uma coisa, se a vida lhe reservou ser um homem tão desafortunado, ficou aleijado perdendo os movimentos dos pés e das mãos e também não tinha maiores atributos ou elegância, como ele pôde ser tão generoso com ela, retribuindo-a com obras desta natureza?

– Você precisa entender duas coisas importantes, meu caro amigo: a arte não oferece troca de moedas, barganhas ou favores, como tem ocorrido por aí com bastante frequência, a outra coisa importante é que cada um dá o que tem, meu caro, não tem nada de complicado nisso, é simples de entender, qual é a dificuldade de entender isso?

– De fato, não há.

– Catedrático, você sempre me deixando em maus lençóis. Desse jeito vou acabar indo para o inferno ou no mínimo parar no purgatório. Mas não fique pensando que você vai para o céu. O céu é apenas um lugar para ser apreciado, como estamos fazendo aqui nesta paisagem como forasteiros. Para dizer a verdade, esta conversa de inferno e purgatório é uma brincadeira de muito mau gosto. Discutiremos este assunto mais adiante como ficou combinado, não seja insolente.