Chão Arejado

Publicado: agosto 2, 2016 em Poesia

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retrato anômalo

para kevin carter

sobrevivo grande parte da vida dentro de uma águia de aço

e minha existência se resume às lentes e aos flashes de uma fotografia.

o meu corpo sangra ao longo das linhas dos mapas.

as geografias que retrato são como estilhaços de vidro.

cada momento é um pedaço de existência esvaindo-se no vento.

tenho um corpo frágil e é impossível sustentar tantas misérias.

a minha mente está em constante estado de convulsão

e não sei até quando vou suportar tudo isso: dores invisíveis

e sangue vertendo como uma espuma de bile, ou cianureto,

que aos poucos vai derramando sobre os solos áridos.

 

para suportar tantas dores e angústias sou dominado por anfetaminas,

que um dia me levarão para suas órbitas, lá onde tudo é deserto e mudo.

onde um dia eu também vivi.

diante desta fotografia que ora te ofereço,

essas sílabas vivem sem razão para existir,

e sua voz é como um zumbido em meu ouvido vindo de uma terra seca

e rarefeita de pó,

tão inaudível quanto os deuses nas catedrais subterrâneas medievais ou aqueles presos em sarcófagos e soterrados nas profundezas do vale dos reis ficando lá para sempre como demônios do meio dia.

eu poderia mudar o foco deste gesto, pois os morcegos vivem gritando em meu ouvido todos os dias, como vampiros chupando o sangue de um esquálido sem território.

vivo no limite entre vida e morte. a condição humana me apavora.

o mundo me asfixia de uma forma ou de outra. morrerei por vontade própria.

com a mesma existência embora com forças contrárias ao homem lá de cima, sentado numa poltrona vendo quieto tudo acontecer, nessas terras inférteis de pura desolação dentro de um planeta estéril sob este céu que ora me apedreja,

ora trata-me com falsa benevolência, afetos e indulgências…

somos do the bang-bang club. faço parte de vozes contra o apartheid. nossos corpos lutam contra os noventa por cento de pretos sendo evacuados das ruas às seis da tarde. enquanto isso os outros dez por cento tingidos de neve vivem livremente como corvos.

vejo agora uma criança sendo mirada por um instinto abutre. queria que estivesse brincando no parque com seus amigos. e eu eternizando sua existência pela lente de uma fotografia. seria belo se fosse uma fábula.

ninguém escapa aos estilhaços de balas e pólvoras e suas cápsulas espalhadas em ruas lamacentas e guetos de ayod. nem o ingênuo e o igualmente faminto abutre escapa. a imagem da tragédia desnuda-se de palavras. em ayod hamlet no sudão é puro pesadelo, é como espectros nos assombrando todos os dias nas esquinas da vida pela lente de uma ampulheta. a desnutrição não passa de uma metáfora para uma realidade muito mais cruel. a morte é um espelho em refração permanente como os estilhaços de um meteoro.

esta saudade me corroe por dentro.

ken!, em breve estaremos juntos, nos encontraremos antes mesmo do entardecer. em breve seremos esquecidos como poeiras lançadas ao vento. fique tranquilo. as pessoas esquecem tudo muito rapidamente e até mesmo as coisas mais escabrosas. dorme sossegado.

queria ser de outra espécie. não posso. tenho forças limitadas.

caminho sobre terrenos tortuosos ao longo de grandes depressões

com fazendas cercadas de arames furando o meu corpo.

quero ir embora meus amigos ken, greg e joão, eu quero, lá fora o mundo é abjeto.

queria salvar uma vida a cada novo voo. mas não consigo por ter forças limitadas.

queria ser um pássaro para voar por entre as planícies e levar alimento para as terras esquecidas e famintas. o mundo à minha volta não faz mais nenhum sentido.

sinto minha carne sendo comida por sanguinários canibais. são muitos e estou sozinho nesta estrada escura e sombria.

estou sendo dominado por anfetaminas. a minha vida está fazendo pouco sentido nessa terra de loucos e dementes. vivo constantemente com culpas alheias. um de meus melhores amigos morreu antes mesmo de eu poder dar-lhe um último abraço de despedida.

estou deprimido, sem telefone, sem dinheiro para o aluguel, sem dinheiro para ajudar as crianças, sem dinheiro para as dívidas… dinheiro! sou perseguido pela viva lembrança de assassinatos, cadáveres, raiva e dor; pelas crianças feridas ou famintas; pelos homens malucos com dedo no gatilho, muitas vezes policiais, carrascos… se eu tiver sorte, vou me juntar ao ken.

naquele dia estava num terreno que se resumia a corpos esquálidos em meio a detritos e lama. não havia espaço para aviões e burgueses.  não estava num espaço para principiantes. já há muito tempo o meu corpo vive no limite. barreiras são fincadas de forma instransponível. nunca fui personagem de um livro de ficção. embora a realidade não passe de metáforas e fantasias monstruosas. todos os dias o meu coração sangra, por mais que eu não queira. não sou adepto do sadismo perverso. aprecio o prazer e a vida em liberdade. se retrato o horror é porque estou inquieto e gostaria de ver outra imagem de beleza e paisagem, bela e feliz, com o canto dos pássaros e o balé das águas, e sentir o cheiro das folhas secas caindo no chão da floresta nas diferentes geografias dos mapas.

estou aqui contemplando esta cena. ninguém escuta o meu grito. fico aqui falando para ouvidos moucos. como não tenho com quem conversar falo em monólogo. o meu instinto é incontrolável. fiquei ali cabisbaixo vendo aquela imagem, um corpo esquálido arrastando-se no meio dos detritos, e depois perguntei-me: por que este mundo me deixa nesta situação, neste abismo?

não sou vulgar e meus instintos não se resumem a hábitos necrófagos. venho aqui para restaurar um novo mundo com outros aromas e te mostrar uma nova imagem sob outra perspectiva de minha vida e existência. não sou apenas comedor de carne nem vivo a vida inteira sobrevoando cadáveres. tenho vida longeva. posso ser um operário para outros trabalhos braçais durante um bom tempo e depois viajo para outras planícies e terras desoladas levando os mesmos propósitos. sou civilizado. sou filho dos hieróglifos e posso ser tua mãe para cuidar-te assim como faço com os meus próprios filhos que vivem além das montanhas para não serem comidos por predadores e canibais rastejantes.

como fêmea fui fecundada pelo vento durante o voo. o início de minha existência é pura poesia.

protejo os sarcófagos no corpo de ísis com minhas asas.

também sou totalmente transformado em ísis para sobrevoar e proteger o corpo de osíris.

o pequeno abutre estava ali cumprindo sua missão sobre esta terra de suicidas. por puro instinto vive limpando toda nossa grande podridão para deixar este chão arejado.

 

marcos torres

ilustração: uillian novaes    

 

narrativa cotidiana

Publicado: julho 26, 2016 em Crônicas Urbanas, Poesia

…quando vão [me] acordar? quem um dia ouvirá esse meu grito abafado pelo rumor do tráfego?…

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narrativa cotidiana

Publicado: julho 26, 2016 em Crônicas Urbanas, Poesia

…quando vamos poder seguir?…

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Imagem da Capa do livro Cores da Indochina.marcos torres

EM BREVE!

BOOKTRAILER DO LIVRO CORES DA INDOCHINA – PORTUGUÊS – INGLÊS
TAILÂNDIA

(…)

O trabalho era o mesmo todos os dias. Carregávamos as sementes em grandes cestos de vime, usávamos calça do tipo pescador e os tradicionais chapéus vietnamitas em forma de cone. As sementes eram colocadas em terrenos arados e ao mesmo tempo lamacentos. Ficávamos com os pés submersos na lama. Durante a jornada de trabalho havia pouca conversa e nenhuma dispersão. Os tailandeses são muito tímidos e muito dedicados ao trabalho. Há neles uma resignação difícil de traduzir.

(…)

Cheguei ao posto da aduaneira logo cedo. Os fiscais e policias tinham aquela cara de sono e de gente mal humorada. Imediatamente peguei o passaporte e coloquei-o na mão direita e com a outra carregava uma mala pequena com roupas e objetos de primeira necessidade. Isto era tudo.

Os ficais vasculharam tudo o que tinha em minha mala e em seguida os policias verificaram meu passaporte e outros documentos.

– Agora o senhor passa lá no guichê e paga sua taxa de entrada no Camboja –.

Depois fui liberado sem maiores problemas.

Enquanto eu ia em direção à catraca os policiais e os ficais me olhavam com caras de poucos amigos.

(…)

CAMBOJA

Agora estava em terras cambojanas. Ali acontecia algo que já havia visto em outros lugares. Gente vendendo bugigangas e transeuntes passando de um lado para o outro a todo instante. Um velho fumando um cigarro de palha, com o rosto esquelético e um olhar triste, talvez circunspecto, usa roupas esfarrapadas e na cabeça um chapéu panamá desbotado e sujo. Uma criança se espoja no chão e fica como as jovens chinesas maquiadas com pó de arroz, enquanto do outro lado a mãe faz uma criança parar de chorar e coloca uma sandália de borracha com um feixe de elástico para prender os pés do bebê.

(…)

Quando me deparei com os Templos de Ankor fiquei paralisado. Havia ali uma história que eu mal conhecia.

(…)

VIETNÃ

(…)

Num passeio rápido de barge era possível ver ao longe os paredões de pedras ao longo da Baía Hà Long.

(…)

BOOK TRAILER

BOOK: “COLORS OF INDOCHINA”

THAILAND

(…)

The work was the same every single day. We carried the seeds in large wicker baskets, wore
fisherman pants and traditional cone-shaped Vietnamese hats. The seeds were put on plowed,
muddy soil. Our feet stood submerged in mud. During working hours there was little talk and
no dispersion. Thais are very shy, very dedicated to work. There is a kind of resignation
concerning them which is difficult to depict.

(…)

I arrived early at the customs post. The controllers and the police looked sleepy and had
grumpy expressions. I held my passport on the right hand, on the other I carried a small
suitcase with clothes and objects of primary necessity. That was all.
The officers searched everything I had in my bag and then the police found my passport and other documents.

— Now you pass there at the counter and pay your entry fee to Cambodia -.

After that I was released without further problems.

While I was walking towards the baffle gates both the police and the controllers stared at me in a not so kind way.

(…)

CAMBODIA

Now I was on Cambodian land. There occurred something that I had already seen elsewhere.
People selling trinkets and passers waliking from one side to the other at any moment. An old
man smoking a hand-rolled cigarette, his skeletal face and a sad look, maybe circumspect,
wearing tattered clothes and a faded, dirty Panama hat. A child wallows on the ground and
now she looks like a young Chinese child with powder on the face, while across the street a
mother calms down her crying kid and brings a rubber sandal with an elastic strap to hold the
baby’s feet.

(…)

I was paralyzed when I came across the Ankor Temples. There laid a story that I barely knew.

(…)
VIETNAM

(…)

During a fast barge ride one could see from a distance the stone walls along the Hà Long Bay.

(…)

Translated from Portuguese into English by Thiago Santos Cardoso on July 5, 2015,

 

narrativa cotidiana

Publicado: julho 7, 2016 em Crônicas Urbanas, Poesia

20.

…por que ainda não acordamos?…

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…será que o [sinal] vermelho ainda está fechado?…

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narrativa cotidiana

Publicado: julho 7, 2016 em Crônicas Urbanas, Poesia

… esperando sentado sem pressa um trem que nunca chega…

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Poema Visual – Visual Poem

Publicado: junho 28, 2016 em Poesia

Para a coletânea do livro Cartografia.

Descartável

Poema Visual – Visual Poem

Publicado: junho 27, 2016 em Poesia

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narrativa cotidiana

Publicado: junho 27, 2016 em Crônicas Urbanas, Poesia

…passo suspenso…

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narrativa cotidiana

Publicado: junho 27, 2016 em Crônicas Urbanas, Poesia

…caldeirão de histórias e memórias…SAM_0005