“O mito da verdade da Poesia”

Publicado: fevereiro 12, 2013 em Conto

Crônicas Urbanas – Por Marcos Torres
“O mito da verdade da Poesia”

Outro dia estava aguardando numa determinada livraria alguém do departamento comercial. O objetivo da espera era conversar sobre a possibilidade de distribuir o meu primeiro livro de poesia, “Poesia Metafísica”, naquele espaço. Enquanto esperava fiquei conversando com a balconista e vendedora da loja. Falei um pouco sobre o meu livro e perguntei se ela gostava de poesia. Imediatamente me respondeu que talvez gostasse. Perguntei o porquê do “talvez gostasse”. E veio a sentença: disse que tinha medo de fazer uma interpretação “errada” (atualizo: equivocada) quando conversasse com alguém e/ou os amigos e amigas e por isso não lia; preferia ler romance, pois se talvez não “entendesse tudo”, alguma coisa com certeza ela poderia conversar com aqueles e aquelas.

No primeiro momento fiquei chocado com aquilo, depois me recompus e perguntei como podia acontecer isso. Sem mais palavras fiquei em silêncio e a convidei para o lançamento do meu livro. Por razões desconhecidas não foi ao lançamento. Dias depois levei um exemplar para ela. Disse-me que não pode ir devido aos muitos afazeres na loja e em casa. Enfim, autografei o livro e coloquei uma dedicatória, dizendo para ela que jamais se separasse da poesia a não ser por vontade própria; que lesse num quarto fechado sem ninguém por perto para induzir ou criticar sua interpretação, leitura e crítica (brinquei), a partir do seu repertório trazido desse encontro e dos mil focos da Cultura. Depois fui embora devidamente satisfeito com o meu papel. Não estou aqui para captar certa benevolência. Este é um espaço de reflexão.

O que quis dizer com isso exposto acima? “O mito da verdade da poesia” continua imperando nos diversos espaços socioculturais. Um grande número de pessoas vive pregando uma verdade que parece guardada num baú trancado a sete chaves. Digo categoricamente: isso simplesmente não existe. É um delírio. O que existe são modos de leitura a partir de certas experiências e instrumentalizações. Mas isso não significa que alguns sejam mais ou menos importantes. Há casos e casos. Pelo que sei ninguém nasce assim. Com isso não quero dizer que o papel da Crítica seja desvalorizado, muito pelo contrário, a leitura crítica pode ser uma forma muito importante de canalizar esta experiência de leitura e fomentar o desejo de novos leitores para a leitura da poesia e da literatura. O que é preciso deixar claro é que TODA leitura e crítica sobre determinados produtos da cultura são válidas e importantes, afinal, o escritor não roda apenas cinco ou dez exemplares apenas para alguns, a não ser que sejam feitos no fundo do quintal para distribuir apenas para seus pares, pois pelo que me consta as editoras não aceitam tal empreitada.

Digo mais uma vez de forma categórica: A significação da poesia não está num baú trancado a sete chaves. O sentido da poesia nasce do encontro.

TORRES, Marcos. O mito da verdade da poesia. In: “As Flores do mal” nº 09 – Setembro de 2012.

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