POEMA-RESPOSTA-MANIFESTO

Publicado: março 18, 2015 em Poesia

PARA QUE E POR QUE ESCREVER POESIA?

 

“onde eu nasci passa um rio
e o tempo voa
como um passarinho”

*Euvaldo Macedo Filho

*Faço de algumas palavras deste Grande Fotógrafo e Poeta as minhas.

sei pouco expressar-me a não ser por meio de palavras e gestos cuja poesia é o meu maior combustível. gosto de expressar-me por meio da poesia, “minha aproximação pessoal dos mistérios, do grande mistério que é viver. fascínio”. escrevo poesia “para manter-me são. o mundo a minha volta é cheio de loucuras, feiuras”, escrevo poesia “para me salvar do cotidiano triste”, a poesia “é um instrumento e eu a uso para criação. ela dá-me equilíbrio e às vezes me faz feliz.” a poesia, “- para mim – é um instrumento mágico onde eu toco, a fuga dos instantes no tempo.”

Algumas pessoas vivem me perguntando “POR QUE” eu insisto escrever poesia, ou pelo menos aquilo que assino como tal. Mesmo com tantas visões negativas em torno dela. Mas isso não é nada novo, já vem lá de Platão. Talvez antes. Enfim. Ando pensando sobre o assunto. Ainda não tenho uma resposta e nem sei se um dia terei. Por outro lado fico pensando se existe de fato algum “PORQUÊ” para responder tal exigência. Não sei se o que vou dizer tem alguma validade. Sou desconfiado! Ainda assim arrisco algumas respostas, nem que seja em um estágio temporário:

POEMA-RESPOSTA-MANISFESTO

Escrevo poesia para “catar feijão”…

Escrevo poesia para conversar com as pedras…

Escrevo poesia para falar “sobre nada”…

Escrevo poesia para conversar com fantasmas e assombrações

nas janelas dos dias e em noites de escuridão…

Escrevo poesia ao saber sobre o desprezo ao lixo… Gosto do lixo, nos termos de camaradas como Manoel de Barros e Arthur Rimbaud… O lixo era algo que fazia parte de muitos dos poemas feitos por este último e outros intermináveis pairando por aí como espectros…

Escrevo poesia quando vejo um coração sangrar, inclusive o meu, que às vezes junto com o corpo fica em cacarecos, assim como tantos outros…

Escrevo poesia ao ver a Dor e o Desespero estampados nos rostos…

Escrevo poesia ao existir pessoas comendo uma pedra em vez de um pedaço de pão…

Escrevo poesia ao pensar no burguês dormindo numa suíte e no maltrapilho tentando ajustar seu corpo no canto de uma parede embaixo de uma marquise vendo a lua por entre os prédios…

Escrevo poesia ao notar corpos em estado vegetativo, este último termo está impregnado de verdades e metáforas…

Escrevo poesia por ficar aliviado ao saber que moro na esquina do suicídio…

Escrevo poesia ao saber que existe a morte nesse mundo de quinquilharias…

Escrevo poesia ao notar pessoas nutrindo esperanças como uma planta esperando a chuva…

Escrevo poesia ao perceber pessoas querendo um abraço e pedindo um afeto. Pessoas próximas já têm a minha presença e meu corpo e não precisam de tantas palavras escritas numa folha de papel. Só em momentos raros e especiais…

Escrevo poesia ao ver a liberdade lá no horizonte, nem que seja pela luz de um vaga-lume… Não gosto de escrever versos para Alexandre da França nem ficar na bainha da saia de Elisabeth… “… um jogo nas mãos de inúmeras gerações idiotas”… e surgindo cada vez mais, disse um dia Arthur Rimbaud. Ele tinha lá suas razões. Ele tinha em mente suas exceções…

Escrevo poesia ao me deparar constantemente com engodo, falsidade em atacado,

hipocrisia em promoção como um produto vendido a varejo nas prateleiras dos supermercados, e segregação de todo o tipo, praticante de necrofilia na couraça de um Kraken, tão apavorante quanto àquela dos católicos na Santa Inquisição, espantosamente também vindo de quem pensa lutar contra essas coisas e na prática segue no exato oposto, uma realidade ao contrário…

Vive em profundezas e subterrâneos comendo carnes como canibais…

Vejo sanguessugas, mercenários e bárbaros escondidos nas sombras…

Predadores vorazes, morcegos e vampiros mergulhados numa espuma de bile…

Escrevo poesia para usá-la como antídoto contra cães selvagens…

Escrevo poesia para ver com uma lente um rio caudaloso e abjeto e em derrisão…

Escrevo poesia ao ver em muitos momentos um mundo cruel, injusto e sanguinário…

Se fosse o contrário eu não perderia o meu tempo e iria para o topo de uma montanha tendo mais tempo para contemplar a natureza e ver o sol escondendo-se atrás dos rochedos…

Escrevo poesia para respirar, para não morrer tão rapidamente, mas aos pouquinhos,

aos pouquinhos…sou apenas uma força da natureza e nada mais…nesta viagem, estou apenas de passagem…

Escrevo poesia…

DESENCANTO

Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora

De desalento… de desencanto…

Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…

Tristeza esparsa… remorso vão…

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, no coração.

E nestes versos de angústia rouca

Assim dos lábios a vida corre,

Deixando um acre sabor na boca.

– Eu faço versos como quem morre.

Manuel Bandeira sintetiza bem o que eu penso sobre o fazer poético. Essa é a minha miragem. É a minha Verdade da poesia, pelo menos para mim mesmo. O que para mim já é o bastante.

Embora muitos talvez pensem o contrário, acredito nesse poema de Manuel Bandeira sendo uma poesia muito positiva em relação à vida e a uma certa realidade, que, de alguma maneira, nos cerca todos os dias…

Eu escrevo poesia! Em resumo fico cada vez mais convencido de que definitivamente não existe UM “PORQUÊ”.

marcos torres

Salvador, 14 de março de 2015.

PARA QUE E POR QUE ESCREVER POESIA

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comentários
  1. Elisabet disse:

    Muito bom Marcos, as referências, o assumir… em frente! A poesia está aí…

    • Esta é minha singela homenagem ao “Dia Nacional da Poesia”, Elisabet Moreira. A partir de agora vou mergulhar na escrita do meu novo romance. Por outro lado, também estou reavaliando algumas posturas críticas, na tentativa de entender este novo cenário e ao mesmo vislumbrar novas percepções sobre o estado das coisas…Em certa medida o meu novo romance traz a baila um pouco de toda essa discussão: O constante deslocamento do sujeito fugindo de sociedades de controle para o disciplinamento e o dilaceramento dos corpos…

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