Arquivo da categoria ‘Crônicas Urbanas’

6. em algum chão de pedra no Nordeste de Amaralina / Salvador- Bahia – Brasil / talvez um dia o livro e a leitura e as múltiplas possibilidades da linguagem substituam as balas que varam e dilaceram os corpos / talvez um dia acalentem os corações de famílias inteiras e pais e mães que choram, sempre alimentando a esperança como uma planta esperando a chuva…

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7. em algum corredor com casas de blocos entre pedaços de madeira de antigas palafitas no bairro de Novos Alagados / ou talvez viaje em direção às palafitas do bairro de Massaranduba / seguindo sobre trilhos enferrujados e vagões em cacarecos… Salvador – Bahia – Brasil / madeiras que constroem casas também viram celulose para nascer um livro em papel…

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Diálogos Entregues ao Sabor do Impoderável

1.em algum lugar da Central do Brasil… – RJ – Brasil

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2. em algum canto no Largo da Carioca… – RJ – Brasil

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3. em algum pedaço de chão na Rua do Ouvidor… – RJ- Brasil

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4. em algum espaço transitório da Praça XV, ou seria da Zona Portuária, ou talvez aporte em algum lugar em Niterói… – RJ – Brasil

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5. em algum vagão do metrô sentido Pavuna, ou seria Complexo do Alemão?, ou talvez siga para o Morro Dona Marta para talvez ficar junto do Céu de Histórias e suas“pipas literárias”… – RJ – Brasil… deixemos esses diálogos entregues ao sabor do imponderável…

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Marcos Torres, Rio de Janeiro, sexta-feira 12 de junho de 2015.

António Lobo Antunes

Publicado: maio 8, 2015 em Crônicas Urbanas

“Eu só sou o António Lobo Antunes com o papel na mão. Sem o papel na mão, sou um chato.”

António Lobo Antunes: “Não tenho muito jeito para viver”

Como são os dias de alguém que dedica uma vida inteira à escrita? No momento em que chega às livrarias Caminho Como uma Casa em Chamas, aqui fica o relato de uma entrevista com o escritor, entrecortada com “a pavorosa realidade” do quotidiano

 Não gosta de conversas, de entrevistas então ainda menos. “A única coisa a que os leitores têm direito são os livros”, costuma afirmar António Lobo Antunes, 72 anos. Com isto, o escritor quer dizer que o que importa é a literatura. E também que não se esperem grandes revelações sobre a sua vida privada: “Tenho relações de intimidade com duas ou três pessoas.” Do dia a dia de Lobo Antunes há apenas algumas coisas que perpassam nas crónicas que publica na VISÃO, sobretudo nas que se aproximam mais do género diário pessoal.

“Eu só sou o António Lobo Antunes com o papel na mão. Sem o papel na mão, sou um chato.”

Não, não é um chato. Apesar de todas as angústias, António Lobo Antunes mantém um sentido de humor de que vale a pena falar. Adora uma pequena história, um diálogo sem nexo, uma incongruência divertida. É capaz de se rir até às lágrimas de uma frase possidónia proferida por alguém, não importa quem. E de voltar a contá-la, acrescentando-lhe uma graça que nem todos poderão gabar-se de possuir. Lobo Antunes tem, isso sim, uma vida rotineira, uma vida de dedicação total à escrita. E, ao mesmo tempo que diz  escrever porque não sabe fazer mais nada, também é capaz de dizer que está cansado de tudo.

“No princípio só vinha para aqui escrever. Já estou farto, apetece-me mudar de sítio. Nunca aguento muito tempo numa casa. Passado uns tempos, começo a ficar cansado. Não sei o que é e, sobretudo, não sei até que ponto é que quando estou a dizer que estou farto desta casa, não posso estar a dizer ‘estou farto de mim’.”  

Vem aí uma daquelas alturas. António Lobo Antunes já acabou de escrever a primeira versão do livro (o terceiro depois deste que agora chega às livrarias, Caminho Como uma Casa em Chamas, sendo que, pelo meio, ainda terminou outro, que sairá no próximo ano) e tem em cima da sua mesa de trabalho um monte de folhas A4 que é preciso rever e cortar, cortar e rever. Anda às voltas com uma personagem, uma surda-muda que lá aparece. E lembra-se dela, a propósito de nada, antes de, na Avenida de Roma, entrar para o dentista onde há meses passa duas tardes por semana.

“- Não tenho muito tempo livre.

– E o que faz nos intervalos dos livros, quando não está a escrever?

– Coisas inconfessáveis [risos].”

Os dias estão mais frios e, às quintas-feiras, já não há jantar em casa dos pais, em Benfica. A mãe, Margarida, morreu quase há dois meses; um dos irmãos, Pedro, vai fazer um ano. Na semana passada, pela primeira vez depois da morte da mãe, o seu irmão João, o neurocirurgião, convidou os manos para jantar. Da casa da infância, António Lobo Antunes só quis trazer uma fotografia da mãe. Tem-na, emoldurada, nova, bem vestida e elegante, rodeada de estantes com livros até ao teto, de frases escritas na parede, de quadros pintados por Júlio Pomar.

“Nos hospitais, vi muita gente morrer, mas nunca vi ninguém chamar pelo pai. Agora olho para aquele retrato e penso: é a minha mãe. Só com a morte dela é que me dei conta da sua importância. Há aquela frase de Conrad tão dramaticamente verdadeira: tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento sobre ela que chega tarde demais.” 

Impressiona qualquer um, a quantidade de frases que António Lobo Antunes sabe de cor. Poemas, bocados de livros, diálogos, histórias. Sim, memória de elefante. As suas entrevistas estão cheias de citações, como se houvesse sempre uma à medida de cada pergunta jornalística. Já se disse aqui que não gosta de entrevistas, “uma espécie de interrogatório policial” (acha o próprio) durante as quais o alegado suspeito não larga a sua personagem (acrescentamos nós). E este, em concreto, diz apenas o que quer. Nos últimos tempos, por exemplo, tem-lhe apetecido dizer mal do Governo.

“Os portugueses merecem muito melhor, merecem muito mais do que o Governo que têm, muito mais do que a maneira como os obrigam a viver. Já ouviu um discurso do primeiro-ministro? A quantidade de erros de português que ele dá… Como é que podemos ser governados por pessoas que nem sequer sabem falar português? Não posso com esta mediocridade, com este vazio de ideias, com esta mentira constante. ‘Decisão irrevogável’? O meu pai nunca admitiria que um filho seu voltasse atrás com a palavra. E isto passa-se no mundo inteiro. Há pouco tempo, George Steiner comentou comigo que nenhum dos bons alunos de Cambridge ia para a política: só os medíocres vão para a política.” 

António Lobo Antunes sobreviveu a mais um cancro. A dois, um em cada pulmão. O médico que o assistiu disse que o curava – e curou. Faz exames regulares, come rebuçados de mentol para ver se consegue reduzir o número de cigarros que ainda fuma. Fica com a boca impregnada de mentol. E continua a fumar. “Dá-me prazer.” Tirando as viagens ao estrangeiro, sempre por causa dos livros, pouco sai de casa. Não vai de férias, nem de fim de semana (houve um tempo em que, como os magalas, tirava as tardes de sábado).

“Não tenho muito jeito para viver. E acho que os livros são a minha redenção.” 

Escreve dez horas por dia, sete dias por semana, com uma disciplina que poucos escritores no mundo devem ter. E a vida só existe assim. Umas vezes, os livros são tudo. Outras vezes, são “só papéis”: “O que é isto comparado com a pavorosa realidade de, daqui a nada, estar no dentista?”. É capaz de fazer, de enfiada, seis crónicas, “prosinhas”, para depois regressar ao livro sem interrupções (o galope é outro, já explicou várias vezes). Almoça num dos cafés do bairro onde vive, o Conde Redondo. O prato do dia e, muitas vezes, uma sobremesa (tem gostos de garoto, pede leite-creme ou mousse de chocolate). Recebe visitas de meia dúzia de pessoas, três filhas, amigos, a editora Maria da Piedade Ferreira. E telefona a outra meia dúzia. De resto, está sempre ali, a escrever. Contabilidade bibliográfica: 25 livros (não quer que lhes chamem romances), mais cinco volumes de crónicas.

“A presença das pessoas não me incomoda nada. Desde que não falem comigo, escrevo em qualquer sítio. A Agustina dizia que, se fosse preciso, até escrevia numa cabina telefónica.” 

Conta-se que, quando terminava um livro, Iris Murdoch dava uma volta ao quarteirão e começava logo a escrever outro. No caso de António Lobo Antunes, os intervalos entre os livros duram três ou quatro longos meses. Nessas alturas, lê tudo o que apanha. Romance, ensaio, poesia. O que quer voltar a ler, o que gosta muito de ler (Tolstoi e Dostoievski, ditos com a bonita pronúncia que um amigo, professor de literatura russa, lhe ensinou), o que vai saindo, o que lhe mandam. É um grande leitor.

“Quando uma pessoa tem talento, percebe-se logo. Às vezes até na cara se percebe. As pessoas com talento têm uma certa aura. Marlon Brando pode estar metido num cantinho da tela, mas nós só reparamos nele quando olhamos para lá. Uma vez, vi Chagall a pintar os tetos da ópera de Nova Iorque. Era um homem de 80 e tal anos, pequenino, feiíssimo, estava sentado no chão a trabalhar e, no entanto, eu não consegui tirar os olhos dele.” 

Depois, há um dia em que marca uma data no calendário, para se obrigar a si próprio a começar. Não faz concessões de espécie nenhuma. As personagens não têm nome, os livros não obedecem a um plano organizado, têm o número de páginas que precisam de ter. Nas entrevistas, fala pouco (“Não tenho nada para dizer”) e quase nada sobre o livro que é suposto ser promovido. Tem por hábito citar D. Francisco Manuel de Melo: “De que trata o livro? O livro trata do que vai escrito dentro.”“Gosto das pessoas que têm cara de quem vive. E isso não tem a ver com beleza. Normalmente, as pessoas que eu acho atraentes não são bonitas, têm um charme lento, que eu não sei explicar. Acontece-me o mesmo com as cidades. Não gostei nada de Paris nas primeiras vezes que lá fui, mas depois, a pouco e pouco, aquilo vai entrando dentro de nós. Não há nada a fazer, o talento é como um berlinde na mão, ou se nasce com ele ou não se nasce. O grande Curro Romero (conhece Curro Romero, o imortal toureiro?) tinha uma frase que explicava isto: o que não se pode não se pode e, além disso, é impossível.” 

Lobo Antunes mudou-se para o Conde Redondo há meia dúzia de anos. Começou por escrever num rés do chão transformado em ateliê de design que pertencia a um primo bastante mais novo (José Maria Nolasco, que, entretanto, morreu). Era um sítio escuro e frio, no inverno chegava a escrever de luvas e casaco. Depois, Tereza Coelho, a sua antiga editora, que também já morreu, descobriu a casa onde hoje vive (“onde estou”, prefere dizer) e insistiu em que ele viesse para aqui.

“Comprei esta casa com o dinheiro de uma tradução de um livro que vendi para Espanha.”

A casa – num prédio recuperado, com grandes janelas a toda a largura da fachada – não fica longe do Hospital Miguel Bombarda, onde, quando ainda exercia psiquiatria, passava muito do seu tempo. Isso, agora, já não lhe diz nada. Entra e sai da garagem e, quando sai a pé, não passa do virar da esquina (isto não se devia divulgar, mas atravessa a estrada fora da passadeira, quase sem olhar). Quando alguém, seu leitor, se aproxima, fica satisfeito.

“É agradável as pessoas gostarem do nosso trabalho. Temos uma sede infinita de amor. E de reconhecimento. Por muito certos que estejamos do nosso talento e da nossa capacidade de escrever.”

E agora que – graças a um superaparelho que lhe “ressuscitou” um ouvido quase morto – ouve melhor, já nem tem a desculpa da surdez para fingir que não ouve.

um dos últimos remanescentes de um mundo perdido

http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,ele-dizia-nao,1679867

O SOL DORMIU

m.t.

Pensamento avesso

Publicado: maio 26, 2014 em Crônicas Urbanas

Pensamento avesso
Por Marcos Torres

Pensamento avesso

COMPANHIAS AÉREAS SÃO LASTIMÁVEIS

Publicado: fevereiro 15, 2014 em Crônicas Urbanas

COMPANHIAS AÉREAS SÃO LASTIMÁVEIS
CRÔNICAS DE VIAGEM
POR MARCOS TORRES

Companhias Aéreas São Lástimaveis

TUDO É SILÊNCIO E SÓ A POESIA SUSSURRA

Fui a um evento de poesia em Foz do Iguaçu: “Leminski – Múltiplo”. Esta amostra está sendo apresentada no EcoMuseu de Foz do Iguaçu, a aproximadamente 800 metros da entrada da Usina Hidroelétrica de Itaipu. Mas já vou logo avisando que este é um evento diferente. Aqui, tudo vai remando no exato oposto de muitas ocasiões, a milhões de quilômetros de distância, para ser mais exato. Não há grandes plateias, mas apenas pequenas porções de transeuntes; não há autor querendo aparecer mais que o livro, o texto; não há sequer autor de carne e osso, talvez um sútil espírito Leminskiano pairando no ar para nos agradar; nós, pobres mortos-vivos; não há autor pousando para foto como se fosse modelo de capa de revista ou para publicar fotos em revistas de quinta categoria: fotos, casas, piscinas, carros e o escambau; lá não há ninguém apitando ou soltando gritinho ou batendo palmas, mesmo sem querer fazer esta última em muitas ocasiões. Não há coordenador, mediador, Conferencista, orador e o escambau; no máximo um organizador, claro. Tudo é silêncio e somente a Poesia sussurra, baixinho, para não incomodar o ambiente. Até o poeta fica em silêncio. Eu também. Somente sua poesia sussurra, em silêncio, claro. Apenas Monitores à paisana em silêncio e para passar informações quando necessário, baixinho para não incomodar a poesia ali falando, em silêncio, claro. Tudo é aroma e cheiro de perfume, como a Poesia. Na “sociedade do espetáculo” tudo parece se equivaler e nessa esteira muita gente quer aparecer tanto do lado de cá quanto do lado de lá do Atlântico; o problema é que muitas vezes querem aparecer mais que a Literatura e o Conteúdo que o livro pode conter. É um barulho ensurdecedor mas tudo parece enfadonho. Paradoxal. É “o espirito do tempo” (Zeitgeist) e não há como escapar. Neste evento em Foz do Iguaçu ‘ninguém aparece’ e só a Poesia desfila sua avassaladora potência poética. (Algumas fotos servem como “registro e para o ‘regime de veracidade’”. E também as imagens aqui fazem parte de outro regime discursivo). É “o espirito do tempo” (Zeitgeist).

Bom dia, poetas velhos.
Me deixem na boca
o gosto dos versos
mais fortes que não farei.

Dia vai vir que os saiba
tão bem que vos cite
como quem tê-los
um tanto feito também,
acredite.

Enxuga aí

vê se enxerga

essa lágrima
eu deixei cair

examina

examina bem

vê se é
água da pedra
ouro da mina
essa gotadágua

minha
obra prima

Paulo Leminski. Toda Poesia. 2013.

Não seja um velho poeta nem fique iludido achando que está na “última moda”. A “última moda” já é uma espécie de anacronia, como diz Nietzsche em “Considerações Intempestivas”.

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Este (Texto-Imagens-Texto) Texto e outros Textos vão estar oportunamente disponíveis na página “Impressões Temporárias”, na seção “Crônicas Urbanas”, Como parte da Coletânea “Crônicas de Viagem”.

1. TUDO É SILÊNCIO E SÓ A POESIA SUSSURRA
2. COMPANHIAS AÉREAS SÃO LASTIMAVÉIS
3. SUBMISSÃO ENTRE LÍNGUAS
4. O MITO DAS CULTURAS

Há outras duas crônicas já disponíveis nesta mesma seção, também fazem parte da coletânea “Crônicas de Viagem”.

1. TECENDO A VIDA NUMA IMAGEM INDESCRITÍVEL
2. A DELICADEZA DIANTE DE UMA FORÇA INCALCULÁVEL

Se por acaso não estiverem nada mais interessante para fazer, ou melhor, nada para fazer, então leiam-as em tempo oportuno. São crônicas curtas, não mais que uma ou duas e muito raramente ultrapassarão quatro laudas.

A delicadeza diante de uma força incalculável…

Leia abaixo texto na íntegra

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Tecendo a vida numa imagem indescritível…

Leia abaixo texto na íntegra

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