TUDO É SILÊNCIO E SÓ A POESIA SUSSURRA

Fui a um evento de poesia em Foz do Iguaçu: “Leminski – Múltiplo”. Esta amostra está sendo apresentada no EcoMuseu de Foz do Iguaçu, a aproximadamente 800 metros da entrada da Usina Hidroelétrica de Itaipu. Mas já vou logo avisando que este é um evento diferente. Aqui, tudo vai remando no exato oposto de muitas ocasiões, a milhões de quilômetros de distância, para ser mais exato. Não há grandes plateias, mas apenas pequenas porções de transeuntes; não há autor querendo aparecer mais que o livro, o texto; não há sequer autor de carne e osso, talvez um sútil espírito Leminskiano pairando no ar para nos agradar; nós, pobres mortos-vivos; não há autor pousando para foto como se fosse modelo de capa de revista ou para publicar fotos em revistas de quinta categoria: fotos, casas, piscinas, carros e o escambau; lá não há ninguém apitando ou soltando gritinho ou batendo palmas, mesmo sem querer fazer esta última em muitas ocasiões. Não há coordenador, mediador, Conferencista, orador e o escambau; no máximo um organizador, claro. Tudo é silêncio e somente a Poesia sussurra, baixinho, para não incomodar o ambiente. Até o poeta fica em silêncio. Eu também. Somente sua poesia sussurra, em silêncio, claro. Apenas Monitores à paisana em silêncio e para passar informações quando necessário, baixinho para não incomodar a poesia ali falando, em silêncio, claro. Tudo é aroma e cheiro de perfume, como a Poesia. Na “sociedade do espetáculo” tudo parece se equivaler e nessa esteira muita gente quer aparecer tanto do lado de cá quanto do lado de lá do Atlântico; o problema é que muitas vezes querem aparecer mais que a Literatura e o Conteúdo que o livro pode conter. É um barulho ensurdecedor mas tudo parece enfadonho. Paradoxal. É “o espirito do tempo” (Zeitgeist) e não há como escapar. Neste evento em Foz do Iguaçu ‘ninguém aparece’ e só a Poesia desfila sua avassaladora potência poética. (Algumas fotos servem como “registro e para o ‘regime de veracidade’”. E também as imagens aqui fazem parte de outro regime discursivo). É “o espirito do tempo” (Zeitgeist).

Bom dia, poetas velhos.
Me deixem na boca
o gosto dos versos
mais fortes que não farei.

Dia vai vir que os saiba
tão bem que vos cite
como quem tê-los
um tanto feito também,
acredite.

Enxuga aí

vê se enxerga

essa lágrima
eu deixei cair

examina

examina bem

vê se é
água da pedra
ouro da mina
essa gotadágua

minha
obra prima

Paulo Leminski. Toda Poesia. 2013.

Não seja um velho poeta nem fique iludido achando que está na “última moda”. A “última moda” já é uma espécie de anacronia, como diz Nietzsche em “Considerações Intempestivas”.

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Este (Texto-Imagens-Texto) Texto e outros Textos vão estar oportunamente disponíveis na página “Impressões Temporárias”, na seção “Crônicas Urbanas”, Como parte da Coletânea “Crônicas de Viagem”.

1. TUDO É SILÊNCIO E SÓ A POESIA SUSSURRA
2. COMPANHIAS AÉREAS SÃO LASTIMAVÉIS
3. SUBMISSÃO ENTRE LÍNGUAS
4. O MITO DAS CULTURAS

Há outras duas crônicas já disponíveis nesta mesma seção, também fazem parte da coletânea “Crônicas de Viagem”.

1. TECENDO A VIDA NUMA IMAGEM INDESCRITÍVEL
2. A DELICADEZA DIANTE DE UMA FORÇA INCALCULÁVEL

Se por acaso não estiverem nada mais interessante para fazer, ou melhor, nada para fazer, então leiam-as em tempo oportuno. São crônicas curtas, não mais que uma ou duas e muito raramente ultrapassarão quatro laudas.

Poesia – [CICLOS]

Publicado: outubro 22, 2013 em Poesia

[CICLOS]

I

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II

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A delicadeza diante de uma força incalculável…

Leia abaixo texto na íntegra

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Tecendo a vida numa imagem indescritível…

Leia abaixo texto na íntegra

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MORAL ESQUECIDA

Publicado: agosto 6, 2013 em Conto

MORAL ESQUECIDA

Este final de semana li um artigo de João Ubaldo Ribeiro (doravante J.U.R.), “Nós, os desordeiros”, publicado na “Revista Veja” em 7 de agosto de 2013 (curiosamente, a revista é entregue nas bancas e nas residências antes da data de sua publicação impressa na capa). Confesso que em muitos momentos tenho posições muito divergentes das de J.U.R. (nada de novo e tudo perfeitamente natural entre sujeitos críticos). Preciso dizer que não estou falando do J.U.R. escritor ou colunista e sim do J.U.R., cidadão, pessoa física, embora saiba que pode haver uma imbricação entre os dois sujeitos, não há como saber qual o limite entre um e outro. Em relação a este artigo eu concordo plenamente com as reflexões e críticas de J.U.R.

Uma parte significativa da sociedade vive “imersa num mar de pequenas delinquências cotidianas.” Os valores morais parecem degradados ou mesmo numa UTI em estado quase vegetativo. Concordo com J.U.R., pois presencio isso quase cotidianamente, infelizmente. Conforme havia dito, há uma parte significativa da população que não consegue viver com os aparatos mais triviais de convivência nas suas relações sociais e afetivas; comportamentos simples do cotidiano que veio desde as primeiras civilizações, nada de novo sob este céu nublado e sem explicações.

Há um julgamento de toda ordem cujo outro é sempre o algoz. Os reflexos no espelho ficam nos espaços colaterais ou no rodapé da vida social, muitas vezes sem a menor importância. Os conceitos de bondade, generosidade, honestidade, solidariedade, cordialidade são muito contraditórios e muitas vezes duvidosos. A televisão e muitos jornais colocam em suas manchetes uma atitude ensinada desde as primeiras formações das sociedades antigas, nada de novo. Usam essas manchetes como algo espetacular que deve ser ‘ensinado’ curiosamente para uma sociedade tida atualmente como de povos bárbaros e selvagens ou mesmo sem o mínimo de escrúpulo no sentido lato dos termos, mesmo que a intenção seja ‘ensinar’ outra coisa.

Há uma dicção moralista muitas vezes tão rala quanto as cinzas de um fósforo. A sociedade ainda cultiva suas referências, mas o senso moral parece esquecido.

Não digo que fiquei totalmente satisfeito com o referido artigo, pois há uma comparação feita por J.U.R. que discordo: “Sem senso moral, o homem é um bicho ou um psicopata.” Vejo um pouco de exagero nessas comparações. É um “bicho”? Qual bicho seria então? Parece-me que todos os “bichos” têm o seu papel na natureza e inclusive giram num outro ‘time’. O homem como um psicopata também me parece um pouco demais; conheço um pouco sobre o conceito de psicopatia e entendo que talvez este termo não seja adequado para esta ocasião. Discordo dos dois termos utilizados, bicho e psicopata, mesmo sendo ambos utilizados como metáforas.

Abre aspas: Não existe nenhuma sapiência nestas minhas palavras, tudo já foi dito desde os primeiros sopros na terra. Então, muito cuidado aqueles e aquelas que de vez em quando chamam alguém de macaco ou gorila (isso jamais deveria acontecer, mas, como as utopias são sempre muito cambiantes, não custa nada sinalizar), lembrem-se dos macacos e gorilas do Congo que vivem em plena harmonia e jamais derrubam uma árvore ou jamais tiram algo da natureza além de suas necessidades. (Só para relembrar, eles são bichos, viu). Muitas vezes acolhem e aceitam um homem como se fosse parte de sua família, no exato oposto de muitos sujeitos que muitas vezes desprezam os seus ‘semelhantes’.

Um dia irei ao Congo buscar um pouco da sabedoria dos gorilas e dos macacos que vivem serenamente nas lindas florestas de Visoke, no Congo, além das montanhas e vulcões de Virunga. Talvez aprenda algo com a sabedoria deste grupo de seres vivos, e de volta traga um pouquinho de sua sapiência e deixe para trás esta tamanha estupidez!!!

Marcos Torres

“El Caminante” e “Il Viandante”

Publicado: julho 17, 2013 em Conto

El Caminante
Tradução – De Pedro Julio Triana Fenández

“Son las tres y veinte minutos de la madrugada, estoy con insomnio; escribir sobre Thoth me consume los días. El cuerpo ya no obedece lo que las palabras intentan decir. Muchas veces ellas aparecen y me despiertan en medio de la noche. Los ojos están cansados y el cuerpo en un estado lamentable. Necesito parar.” En pasajes como ese, el lector del romance de Marcos Torres siente el balance narrativo de la obra volcarse para uno de sus lados y consigue recuperar el aliento para, en seguida, envolverse de nuevo en un movimiento pendular. El péndulo oscila entre la historia de un caminante, Thoth Fênix, narrada en primera persona, y la misma historia, sutilmente transformada, narrada por su amigo Matheus Leão Adonias, confidente de Thoth en sus andanzas por Brasil y lector privilegiado de cartas enviadas por éste desde diversas partes del mundo.
Tejiendo una narrativa desde diferentes ángulos, Marcos Torres, investigador que se dedica a los estudios de las voces discursivas en biografías y autobiografías, se muestra un autor audaz en un escenario contemporáneo en que pocos consiguen realmente dar voz a personajes transformados en autores de sus propias historias.
Thoth no es objeto, es sujeto de la historia narrada por Matheus. Ambos, al mismo tiempo, son sujetos que dialogan con la voz autoral de El Caminante. Así, el lector tiene en sus manos un objeto estético marcado por la polifonía tal cual la postulaba Bakhtin para las obras de Dostoiévski: una pluralidad de voces narrando y narrándose sin ninguna de ellas ser central o ser responsable por orquestar las demás.

Por Adriana Pucci

Il Viandante
Tradução e Prefácio – De Mauro Porru

PRESENTAZIONE

Niente è sicuro nella vita del viandante Thoth Fênix. Sotto il peso di un nome che contempla il divino e la resurrezione, quest’uomo di quasi quarant’anni, di probabile origine egiziana, improvvisamente decide di abbandonare il mondo del lavoro e scollegarsi dalla società degli eccessi, dagli stimoli esasperati, dal traffico, dal rumore. Una società in cui le senzazioni e i fatti sono divorati più che incontrati, le distanze accorciate e i tempi ridotti. Una società che ci dà l’illusione di poter accedere al mondo con più facilità, quando, in realtà ce ne stiamo allontanando. A causa di tutto ciò, Thoth Fênix diventa un viandante, comincia un lungo viaggio senza meta, senza una data definita per tornare. Invece di lasciarsi frastornare dalla frenesia della vita contemporanea, preferisce allontanarsene, dissociarsi dal ritmo superaccelerato della modernità e cerca una condizione riflessiva che gli permetta di recuperare spazi e tempi trascurati o di godersi posti paradisiaci, meravigliosi e spettacolari inesplorati. Con il suo sguardo sensibile che vede dove non si può vedere ad occhio nudo, entriamo in contatto, nello svolgersi della trama, con i posti visitati dal viandante: posti poco esplorati, posti dove tutti vorrebbero andare almeno una volta nella vita.
Simile alle sabbie mobili, la narrazione procede di forma ibrida e frammentaria. Un pastiche intertestuale che, allontanandosi da forme sistemiche e armoniche, assume la configurazione di un collage, in cui si accumulano molteplici citazioni tratte da fonti diverse. Un modo di narrare eclettico che elimina le barriere tra la scrittura ed altri saperi come storia, geografia, architettura, botanica, biologia, antropologia, cinema e poesia.
Un movimento ondulare conduce lo sviluppo della trama narrata in prima persona da Thoth e in terza persona dall’amico Matheus Leão Adonias, suo interlocutore privilegiato e fedele depositario delle sue memorie. Il tempo della narrazione, per la propria conformazione della scrittura che assume toni diaristici, nonostante sembri sicuro all’inizio – São Caetano do Sul, São Paulo, giovedì, sette febbraio duemilaotto. Sono le ore undici e dieci minuti -, nel corso della narrativa diventa incerto, intercalandosi al tempo della storia.
Il grande assente, nel romazo Il viandante, è Eros nella sua accezione di impulso sessuale. La propria voce autoriale avvisa che il testo ha un tono asessuato. Di questo Thoth moribondo che spesso non viene neanche notato, conosceremo appena le sue aspirazioni e le sue debolezza. Assisteremo alla sua ricerca di un Soggetto atemporale e trascendentale; un Essere che barcolla nel buio. Il “fare” di questo viandante, con tutte le sue connessioni riguardo al rapporto della vita con la società, è sostituito dall’ “essere”, tramite i suoi tipici interessi in cui si contempenetrano l’interiorità, l’Io, la sua consistenza, essenza e significato.
Thoth, nel suo estremo desiderio di libertà, sceglie essere “se stesso”, senza cedere alla tentazione di adeguarsi ai ruoli prestabiliti dalla società e dalla cultura in generale e manifesta, alla fine, un’ aspirazione all’eternità, identificandosi con l’ibis, quell’uccello che muore e rinasce dalle ceneri il giorno dopo in un posto sconoscriuto.

Por Mauro Porru

Os Poemas Suspensos [AL MUALLAQATI]

Publicado: julho 14, 2013 em Poesia

POESIA ÁRABE

Os Poemas Suspensos [AL MUALLAQATI]
Tradução direto do árabe, Introdução e Notas.
Alberto Mussa

A tradição epigráfica árabe é longeva e, segundo Mussa, ultrapassa um milênio, cuja antiga escrita do sul deve ser considerada para esta marcação temporal, especialmente para falar propriamente em literatura árabe a partir da fixação escrita do alcorão, após a morte do Profeta, em 632. Trata-se de uma poesia que veio de uma tradição oral e posteriormente compilada e transcrita de uma cultura beduína e poesia pré-islâmica recitada pelos beduínos, sem que estes tivessem os recursos da escrita, mas somente esses textos armazenados na memória. (2006, p. 9).

Segundo Alberto Mussa, “Os Poemas Suspensos, como as cassidas em geral fala da mulher que o beduíno ama; da natureza que o cerca, das coisas que lhe são mais caras e essenciais à vida; a camela e o cavalo; dos prazeres da vida: a caçada, o jogo, o vinho; das qualidades essenciais do homem: generosidade, coragem, lealdade, sabedoria.” (2006, p.13).

A concisão é uma das características básicas importantes da poesia pré-islâmica, sendo cada verso desenvolvido para corresponder a uma unidade sintática completa, mesmo sendo ligada aos versos precedentes ou subsequentes, ficando desse modo subordinadas a esse traço todas as figuras de discurso ou linguagem. (2006, p.14).

Para falar sobre o conceito, Mussa diz que “tange a ideia de plenitude e perfeição do gênero humano; e compreende, em síntese, a capacidade de suportar as hostilidades do deserto, de enfrentar e derrotar os inimigos, de ser capaz de garantir a sobrevivência coletiva.” Outro ponto importante é o ato de bravura e ousadia, “pela vitória nas guerras, pela lealdade incondicional à tribo, pela obstinação em vigar o sangue dos parentes, pelo estoicismo diante do afastamento da mulher amada, pelo esbanjamento da riqueza, pelo sacrifício de bens essenciais à vida.” (2006, p. 15).

A poesia árabe tem uma força poderosa, especialmente quando versada no contexto da cultura beduína; “o beduíno árabe se considera superior às demais espécie de homem, porque é só no seu mundo inóspito e hostil que se pode alcançar a plenitude de “murua”. Por isso ele é mais perfeito, o mais nobre, o mais bonito, o mais forte, o mais capaz, o mais livre, o mais feliz.” (MUSSA, 2006, p.15)

[Seções do poema de Tárafa (42-77)]

42 Quando a tribo indaga: “Quem é o valente?” – suponho seja eu a quem aludem, por não ser preguiçoso, por não demonstrar estupidez.

43 E envelheço, empunhando o meu chicote, montando na minha camela, que dispara quando uma miragem tremula no solo rochoso, reverberante,

44 e arrasta a cauda, como faz a dançarina, mostrando ao amo as barras de um vestido largo e branco, de fio não traçado.

45 Não me escondo, com medo, nas ravinas altas; é a mim que a tribo chama quando pede socorro.

46 Quem me procura nas assembléias, me encontra; quem segue meu rastro pelas tendas de vinho, também.

47 Quem vem a mim amanhece com um cálice abundante, quem o recusa – por ser rico – que fique então com sua riqueza, e a acrescente!

48 Quando o clã se reúne, estou sob o vão mais alto da tenda mais nobre, a que todos se dirigem.

49 Meus comensais são imaculados como estrelas – e à tarde vem nos distrair uma escrava de túnica listrada e açafronada,

50 que deixa exposta uma ampla abertura na frente da túnica: é indulgente com as carícias dos convivas; e delicadas, as partes que desnuda.

51 Quando pedimos: “Canta!” – ela nos encara, lenta, suave, espontânea,

52 e sua voz é como o eco das camelas que perderam os filhotes nascidos na primavera.

53 Nunca parar de beber vinho, de gozar a vida, de vender e dar o que conquistei e o que herdei!

54 Fui renegado em minha própria família, banido como um camelo untado de alcatrão.

55 Mas vejo que os filhos da terra não me rejeitam, nem o povo destas amplas tendas de couro.

56 Aquele que me repreende, por estar no tumulto da guerra ou gozar dos prazeres da vida, pode me dar a imortalidade?

57 Se não podes me manter afastado da morte, deixa que eu corra para ela, com o que tiver nas mãos!

58 Não me importaria com a visita dos que velam os mortos, não fossem três prazeres de jovem:

59 um trago de vinho tinto, que começa a espumar misturado com água, transbordando do cálice (isso é o que em mim mais censuram);

60 um combate a cavalo, quando me convocam, num garanhão de patas recurvas, como o chacal dos bosques sombrios, prontos a emboscar os que vêm beber;

61 e um lânguido, quando o céu se encobre de nuvens negras – maravilhosas nuvens negras –, sob uma tenda bem fincada, com uma mulher bela e carnuda,

62 cheia de braceletes e pulseiras, como se perdessem do trono imaculado de uma asclépia ou de uma mamoneira.

63 O nobre bebe até se encher, a vida inteira; se morrermos amanhã, saberás quem de nós terá mais sede.

64 Vejo que o túmulo do avarento mesquinho sepulto com seus bens, é o mesmo do perdulário que se entrega ao ócio:

65 dois buracos cavados na terra sob duas largas lápides maciças.

66 Vejo a morte escolher os nobres e eleger o melhor dos bens do pior dos avarentos.

67 Vejo que a vida é um tesouro oculto, que míngua a cada noite; e que os dias encurtam; e que o prazo final se esgota.

68 A morte, enquanto não presta atenção no jovem, e como uma rédea solta, mas sempre presa à mão do cavaleiro.

69 O que há em mim para que o filho do meu tio, Málik, se afaste e se isole quando tento me aproximar?

70 Ele me criticou – e eu não sei por que me criticou – como fez Qurt, filho de Mabad, diante do clã.

71 Tirou-me, assim, toda a esperança de obter clemência, como a quem deposita um cadáver na cova.

72 E eu não tinha dito nada, senão que procurei e que não descuidara da camela de Mabad.

73 Pois sempre honrei meus parentes e juro pelos teus antepassados que estarei presente nas situações difíceis.

74 Se me convocam numa grande causa, estou entre os defensores; se os inimigos vêm impetuosamente contra ti, eu os combato.

75 Se Vêm atirar obscenidades contra tua honra, faço-os beber um cálice dos tonéis da morte, antes de te ameaçarem.

76 Sem que tenha feito nada, agora me satirizam, me injuriam, me acusam, me exilam.

77 Se meu primo fosse um outro homem, seria diferente: consolaria minha aflição ou esperaria o dia seguinte.

SATÍRICON

Publicado: junho 29, 2013 em Conto

SATÍRICON

[…] Já que estamos aqui reunidos, não tanto para entregar-nos a discursos eruditos, mas para nos entreter com narrativas agradáveis, aproveitemos então, amigos a feliz ocasião que aqui nos juntou. Fabricius Vegento, como homem de espírito, acaba de vos entreter com os embustes sacerdotais. Ele vos pintou a maneira como os sacerdotes preparam, tranquilamente, seus furores proféticos, ou como comentam descaradamente os mistérios que nem sequer compreendem. Mas será menos divertida a mania dos oradores? Bradam: “Vejam essas feridas, eu as recebi defendendo a liberdade da pátria! Este olho, eu o perdi por vós! Dai-me um guia, levai-me a meus filhos, pois meus joelhos cicatrizados dobram-se sob o peso do corpo!” Mesmo essa ênfase, porém, seria suportável se os caminhos da eloquência fossem revelados aos alunos. Mas de que serve este estilo pomposo, esse jargão vazio? Os jovens, quando são iniciados no tribunal, julgam-se transportados para um novo mundo. O que fez de nossos pupilos mestres tão idiotas é que tudo quanto velem ou ouvem nas escolas não lhes oferece nenhuma imagem da sociedade. Em tais escolas, castigam incessantemente os tímpanos dos meninos com piratas em emboscadas no rio, preparando cadeias para seus prisioneiros; com tiranos cujos decretos bárbaros condenam os filhos a decapitar os próprios pais; com oráculos que, para salvar cidades devastadas pelas pestes, decretam a morte de três jovens virgens. É um verdadeiro dilúvio de frases melosas, agradavelmente dispostas – ações e discursos, tudo salpicado de sésamo e dormideira.

II

– Alimentados com tais tolices, como poderão esses jovens formar seu gosto? Um cozinheiro tem sempre os aromas da cozinha. Ó retóricos! Não vos ofendais, mas é de vós que vem a decadência da eloquência! Reduzindo o discurso a uma harmonia pueril, a um mero jogo vazio de palavras, vós o tornastes um corpo sem alma, um esqueleto somente. Quando Sófocles e Eurípedes criou uma nova linguagem comovente, a juventude não se exercitava os talentos nessas declamações. Pedantes cobertos pelo pó das salas de aulas ainda não esmagavam os talentos no berço quando a musa de Píndaro e de seus nove rivais ousou fazer ouvir canções dignas de Homero. E, mesmo sem citar os poetas, não creio que Platão e Demóstenes tenham se exercitado nesse gênero de composição. Como uma virgem prudente, a verdadeira eloquência não conhece o exagero. Simples e modesta, eleva-se com naturalidade, tornando-se bela graças somente aos seus próprios encantos. Não foi há muito que essa loquacidade bombástica passou da Ásia para Atenas. Como um astro maligno, sua influência mortífera reduziu durante a juventude os impulsos do gênio e, desde então calaram-se as fontes da verdadeira oratória.

[…]

Mais ou menos assim, falava eu certo dia. Foi quando Agamêmnon se aproximou de nós e, com ar de curiosidade, desejou saber quem era o orador que a massa escutava com tamanha atenção.

III

Impaciente por ouvir meu discurso ao longo de tanto tempo, sob o pórtico, quando há pouco, em sua aula, ele mesmo quase ficara rouco sem nenhum sucesso, Agamêmnon assim falou:
– Meu jovem, tuas expressões não refletem o gosto dominante. Tens bom senso, qualidade rara em tua idade. Quero revelar-te os segredos de minha arte. Não cabe aos professores a culpa pela ruindade de nossas lições. Diante de cabeças descerebradas, não se pode falar sensatamente. Como observou Cícero, se o ensino não for agradável, “o professor logo ficará sem ouvintes”. Igualmente, se o adulador parasita quer ser admitido à mesa do abastado, prepara previamente uma seleção de contos agradáveis para os convivas. Ele não atingiria o seu objetivo se não preparasse armadilhas para ouvidos de seu público. O professor de retórica, como um pescador, sabe muito bem que, se não colocar no anzol a isca preferida pelo peixe, ficará sentado eternamente no rochedo, sem esperança de fisgá-lo.

IV

– Assim, portanto, a culpa deve caber somente aos pais que negam a seus filhos uma educação severa e digna de um homem. Como tudo o mais, começam por sacrificar a esperança à ambição que eles possam ter. Em seguida, a fim de alcançar mais rapidamente o objetivo que almejam, lançam nos tribunais esses aprendizes de oradores. E a eloquência que a essa altura só o homem maduro pode atingir, segundo ele próprio o admite, eles a reduzem ao nível de um fedelho. Com mais paciência, os estudos seriam mais bem dispostos. Veríamos uma juventude estudiosa refinar imperceptivelmente seu gosto, meditando sobre livros, sujeitando sua alma pouco a pouco ao domínio da sabedoria, corrigindo penosamente seu estilo e ouvindo atentamente aos modelos que pretende tomar. Enfim, vê-la-íamos rejeitar sua admiração a tudo que normalmente seduz os infantes. Somente então a eloquência ressurgiria em toda a sua imponente majestade e nobreza. Contudo, esses mesmos homens que consideravam o estudo como uma brincadeira na infância, e que na adolescência foram motivo de anedotas nos tribunais, quando chegam à velhice, para o cúmulo do absurdo, não querem confessar os vícios de sua primeira educação. Não que eu reprove completamente a improvisação, da qual Lucílio é o pai – eu mesmo te darei uma amostra do meu estilo:

[…]

[Petrônio, Satíricon, (63 d. C.)]

SALA DE VISITAS

Publicado: junho 29, 2013 em Poesia

SALA DE VISITAS

As imagens
são como dejetos jogados nas calçadas.

Linguagem, buraco negro,
a cena é tenebrosa,
como um abutre comendo carne
pisoteando a sala.

As crianças riem
da ingenuidade alheia;
você paralisado, inerte,
parece um desgraçado,
como uma macambira
numa terra gretada.

Na outra estação
um certo deus barganhando benevolência
por qualquer ninharia.
E eu aqui vertendo sangue,
borrando um papel sem dono.

M.T.

PREDADOR

Publicado: junho 29, 2013 em Poesia

PREDADOR

Lá vem
o algoz correndo atrás da presa,
lambendo o chão de tinta vermelha
com cheiro de carne fresca,
as unhas de dentre-de-sabre
ao encalce do homem da senzala.

O hálito soltando fogo,
como um dragão soprando fumaça
atrás da nuvem escura;
a boca bafora cicuta e cospe detritos
na têmpora do desgraçado.

O maldito chora escondido
em frente aos olhos da serpente,
atrás do cobertor de papelão,
e fica protegido por um artigo, parágrafo ou inciso 3,
no óbito de uma celulose,
quase apagado ou derramado como água salobra.

O predador fica à espreita
derramando saliva no canto da boca,
depois dorme numa cama macia
e espera o maldito sair do gueto para dar o bote.

M.T.