Multidão e Vulnerabilidade: Poetas e Novas Políticas de Subjetivação
Por Sandro Ornellas
[Texto publicado na Revista Anpoll, Vol. 1, Num. 35 (2013)]
Multidão e Vulnerabilidade – Poetas e Novas Políticas de Subjetivação
Multidão e Vulnerabilidade: Poetas e Novas Políticas de Subjetivação
Por Sandro Ornellas
[Texto publicado na Revista Anpoll, Vol. 1, Num. 35 (2013)]
Multidão e Vulnerabilidade – Poetas e Novas Políticas de Subjetivação
POETA FRANÇOIS VILLON
Por Marcos Torres
POESIA ÁRABE
Os Poemas Suspensos [AL MUALLAQATI]
Tradução direto do árabe, Introdução e Notas.
Alberto Mussa
A tradição epigráfica árabe é longeva e, segundo Mussa, ultrapassa um milênio, cuja antiga escrita do sul deve ser considerada para esta marcação temporal, especialmente para falar propriamente em literatura árabe a partir da fixação escrita do alcorão, após a morte do Profeta, em 632. Trata-se de uma poesia que veio de uma tradição oral e posteriormente compilada e transcrita de uma cultura beduína e poesia pré-islâmica recitada pelos beduínos, sem que estes tivessem os recursos da escrita, mas somente esses textos armazenados na memória. (2006, p. 9).
Segundo Alberto Mussa, “Os Poemas Suspensos, como as cassidas em geral fala da mulher que o beduíno ama; da natureza que o cerca, das coisas que lhe são mais caras e essenciais à vida; a camela e o cavalo; dos prazeres da vida: a caçada, o jogo, o vinho; das qualidades essenciais do homem: generosidade, coragem, lealdade, sabedoria.” (2006, p.13).
A concisão é uma das características básicas importantes da poesia pré-islâmica, sendo cada verso desenvolvido para corresponder a uma unidade sintática completa, mesmo sendo ligada aos versos precedentes ou subsequentes, ficando desse modo subordinadas a esse traço todas as figuras de discurso ou linguagem. (2006, p.14).
Para falar sobre o conceito, Mussa diz que “tange a ideia de plenitude e perfeição do gênero humano; e compreende, em síntese, a capacidade de suportar as hostilidades do deserto, de enfrentar e derrotar os inimigos, de ser capaz de garantir a sobrevivência coletiva.” Outro ponto importante é o ato de bravura e ousadia, “pela vitória nas guerras, pela lealdade incondicional à tribo, pela obstinação em vigar o sangue dos parentes, pelo estoicismo diante do afastamento da mulher amada, pelo esbanjamento da riqueza, pelo sacrifício de bens essenciais à vida.” (2006, p. 15).
A poesia árabe tem uma força poderosa, especialmente quando versada no contexto da cultura beduína; “o beduíno árabe se considera superior às demais espécie de homem, porque é só no seu mundo inóspito e hostil que se pode alcançar a plenitude de “murua”. Por isso ele é mais perfeito, o mais nobre, o mais bonito, o mais forte, o mais capaz, o mais livre, o mais feliz.” (MUSSA, 2006, p.15)
[Seções do poema de Tárafa (42-77)]
42 Quando a tribo indaga: “Quem é o valente?” – suponho seja eu a quem aludem, por não ser preguiçoso, por não demonstrar estupidez.
43 E envelheço, empunhando o meu chicote, montando na minha camela, que dispara quando uma miragem tremula no solo rochoso, reverberante,
44 e arrasta a cauda, como faz a dançarina, mostrando ao amo as barras de um vestido largo e branco, de fio não traçado.
45 Não me escondo, com medo, nas ravinas altas; é a mim que a tribo chama quando pede socorro.
46 Quem me procura nas assembléias, me encontra; quem segue meu rastro pelas tendas de vinho, também.
47 Quem vem a mim amanhece com um cálice abundante, quem o recusa – por ser rico – que fique então com sua riqueza, e a acrescente!
48 Quando o clã se reúne, estou sob o vão mais alto da tenda mais nobre, a que todos se dirigem.
49 Meus comensais são imaculados como estrelas – e à tarde vem nos distrair uma escrava de túnica listrada e açafronada,
50 que deixa exposta uma ampla abertura na frente da túnica: é indulgente com as carícias dos convivas; e delicadas, as partes que desnuda.
51 Quando pedimos: “Canta!” – ela nos encara, lenta, suave, espontânea,
52 e sua voz é como o eco das camelas que perderam os filhotes nascidos na primavera.
53 Nunca parar de beber vinho, de gozar a vida, de vender e dar o que conquistei e o que herdei!
54 Fui renegado em minha própria família, banido como um camelo untado de alcatrão.
55 Mas vejo que os filhos da terra não me rejeitam, nem o povo destas amplas tendas de couro.
56 Aquele que me repreende, por estar no tumulto da guerra ou gozar dos prazeres da vida, pode me dar a imortalidade?
57 Se não podes me manter afastado da morte, deixa que eu corra para ela, com o que tiver nas mãos!
58 Não me importaria com a visita dos que velam os mortos, não fossem três prazeres de jovem:
59 um trago de vinho tinto, que começa a espumar misturado com água, transbordando do cálice (isso é o que em mim mais censuram);
60 um combate a cavalo, quando me convocam, num garanhão de patas recurvas, como o chacal dos bosques sombrios, prontos a emboscar os que vêm beber;
61 e um lânguido, quando o céu se encobre de nuvens negras – maravilhosas nuvens negras –, sob uma tenda bem fincada, com uma mulher bela e carnuda,
62 cheia de braceletes e pulseiras, como se perdessem do trono imaculado de uma asclépia ou de uma mamoneira.
63 O nobre bebe até se encher, a vida inteira; se morrermos amanhã, saberás quem de nós terá mais sede.
64 Vejo que o túmulo do avarento mesquinho sepulto com seus bens, é o mesmo do perdulário que se entrega ao ócio:
65 dois buracos cavados na terra sob duas largas lápides maciças.
66 Vejo a morte escolher os nobres e eleger o melhor dos bens do pior dos avarentos.
67 Vejo que a vida é um tesouro oculto, que míngua a cada noite; e que os dias encurtam; e que o prazo final se esgota.
68 A morte, enquanto não presta atenção no jovem, e como uma rédea solta, mas sempre presa à mão do cavaleiro.
69 O que há em mim para que o filho do meu tio, Málik, se afaste e se isole quando tento me aproximar?
70 Ele me criticou – e eu não sei por que me criticou – como fez Qurt, filho de Mabad, diante do clã.
71 Tirou-me, assim, toda a esperança de obter clemência, como a quem deposita um cadáver na cova.
72 E eu não tinha dito nada, senão que procurei e que não descuidara da camela de Mabad.
73 Pois sempre honrei meus parentes e juro pelos teus antepassados que estarei presente nas situações difíceis.
74 Se me convocam numa grande causa, estou entre os defensores; se os inimigos vêm impetuosamente contra ti, eu os combato.
75 Se Vêm atirar obscenidades contra tua honra, faço-os beber um cálice dos tonéis da morte, antes de te ameaçarem.
76 Sem que tenha feito nada, agora me satirizam, me injuriam, me acusam, me exilam.
77 Se meu primo fosse um outro homem, seria diferente: consolaria minha aflição ou esperaria o dia seguinte.
SALA DE VISITAS
As imagens
são como dejetos jogados nas calçadas.
Linguagem, buraco negro,
a cena é tenebrosa,
como um abutre comendo carne
pisoteando a sala.
As crianças riem
da ingenuidade alheia;
você paralisado, inerte,
parece um desgraçado,
como uma macambira
numa terra gretada.
Na outra estação
um certo deus barganhando benevolência
por qualquer ninharia.
E eu aqui vertendo sangue,
borrando um papel sem dono.
M.T.
PREDADOR
Lá vem
o algoz correndo atrás da presa,
lambendo o chão de tinta vermelha
com cheiro de carne fresca,
as unhas de dentre-de-sabre
ao encalce do homem da senzala.
O hálito soltando fogo,
como um dragão soprando fumaça
atrás da nuvem escura;
a boca bafora cicuta e cospe detritos
na têmpora do desgraçado.
O maldito chora escondido
em frente aos olhos da serpente,
atrás do cobertor de papelão,
e fica protegido por um artigo, parágrafo ou inciso 3,
no óbito de uma celulose,
quase apagado ou derramado como água salobra.
O predador fica à espreita
derramando saliva no canto da boca,
depois dorme numa cama macia
e espera o maldito sair do gueto para dar o bote.
M.T.
CÉU CLARO
O cavalo da noite galopa nas luzes da rua
em todo canto o som triste
sento-me na esquina dos séculos
xícara de café: um estádio
um jogo de futebol
torcedores pulam como corvos
rumores de falhas
como o sol da manhã
senil em ascensão
elevo-me para outro andar
sábios tocam tambores nas nuvens
um barco remenda o mar
por favor enlace este momento no horizonte
deixe o milho e as estrelas se entrelaçarem
os desesperados braços de Deus
giram na face de um relógio
Bei Dao
SIM
Neste lugar, um sonho desabou.
E fiz florescer o meu pasto de iras
contra ninguém.
Neste lugar, meus dilemas
me abocanharam
e ouvi gargalhadas que eram punhais.
Neste lugar, me perdi.
E nada pedi a mim mesmo
para encontrar-me.
Deixei que as feras viessem
do meu avesso
e se perdessem de vista em minha carne
Roberval Pereyr
ASA DE CORVO
Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa própria casa…
Perseguido por todos os reveses,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irmãos siameses!
É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o pano preto
Que as famílias de luto martiriza…
É ainda com essa asa extraordinária
Que a morte – a costureira funerária –
Cose para o homem a última camisa!
Augusto dos Anjos
A beleza do falso
Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 14/04/2005.
Como a literatura contemporânea reflete o questionamento da autoria e da autenticidade? A resposta está em Menino oculto, novo romance de Godofredo de Oliveira Neto. Leia entrevista do autor e comentário crítico de Silviano Santiago. (mais…)